Mídia e Psicologia: considerações sobre a influência da
internet na subjetividade

 

Jacqueline de Oliveira Moreira

PUC Minas, Belo Horizonte

(Brasil)

 

Resumo

Este pequeno artigo representa uma tentativa de pensar a influência da mídia sobre a subjetividade. Acreditamos ser responsabilidade do saber psicológico o movimento de pensar sobre as condições históricas que influenciam e criam modos de subjetivação. A criação da imprensa possibilitou o encontro de um número maior de indivíduos com os livros, valorizando a experiência individual; por este motivo, defendemos a tese de uma relação de co-dependência histórica entre mídia e subjetividade. Toda mídia impressa e televisiva determina modos de existência, de subjetividade e de relacionamento, mas a nova mídia, representada pela internet, amplia o potencial de produção subjetiva, modificando as experiências físicas, mentais e sociais dos sujeitos. Ressaltamos ainda que a nova mídia, conectando o sujeito através da rede da internet, produz impactos mais eficientes na subjetividade, modificando as noções de tempo e espaço e a idéia de autonomia subjetiva.

Palavras-chave: mídia; internet; psicologia; subjetividade.

 

Abstract

This short article represents an attempt to discuss the influence that media holds on subjectivity. We believe that thinking about historical conditions which influence and create modes of subjectivization is a responsibility of the psychological field of knowledge. The creation of the press has allowed for a larger number of individuals to have access to books, hence valuing the individual experience; for this reason we favor the thesis that states there is a historical co-dependence between media and subjectivity. All kinds of print and television-broadcast media determine modes of existence, of subjectivity and of relationship, but the new media, represented by the internet, broadens the potential of subjective production, modifying the subjects’ physical, mental and social experiences. We also highlight that the new media, connecting the subject through the internet, leads to more efficient impact on subjectivity, changing the perception of time and space and the idea of subjective autonomy.

Keywords: media; internet; psychology; subjectivity.

 

Resumen

Este pequeño artículo es una tentativa de pensar la influencia de los media sobre la subjetividad. Creemos es responsabilidad del saber psicológico, el movimiento de pensar las condiciones históricas que influyen y crean modos de subjetivación. La creación de la imprenta posibilitó el encuentro de un número más grande de individuos con los libros, valorizando la experiencia individual; por esta razón, defendemos la tesis de una relación de codependencia histórica entre medios y subjetividad. Todos los medios de comunicación impresa y televisiva determinan modos de existencia, subjetividad y relacionamiento, pero los nuevos representados por internet, amplían el potencial de producción subjetiva, transformando las experiencias físicas, mentales y sociales de los sujetos. Resaltamos que los nuevos medios de comunicación, al conectar al sujeto a través de la red de internet, producen impactos más eficientes en la subjetividad, modificando las nociones de tiempo y espacio y la idea de autonomía subjetiva.

Palabras clave: media, internet, psicología, subjetividad.

 

A Psicologia, em sua condição de ciência híbrida entre as ciências humanas e naturais, não pode se furtar ao trabalho de refletir sobre as determinações históricas que modificam as posições subjetivas. Podemos pensar que a Psicologia, em seus diferentes fazeres e olhares, tem por ponto comum o interesse pelo sujeito humano. Essa idéia se justifica pelo fato de que o nascimento da psicologia científica só ocorre em uma sociedade em que há reconhecimento da esfera do íntimo, do privado, do subjetivo (Figueiredo & Santi, 1997). As sociedades holistas não demandaram a criação de uma ciência do subjetivo e do individual, pois nestas organizações o individual se encontra submetido ao todo social (Dumont, 1985). O surgimento da Psicologia como ciência ocorre na modernidade porque é neste momento histórico que encontraremos as condições de possibilidade de uma ciência do íntimo, do privado, ou seja, uma ciência que tem por tema o sujeito. Assim, o conflito epistemológico da Psicologia científica, que se vê entre as ciências humanas e naturais, não diminui a responsabilidade de pensar o sujeito humano no interior de suas condições históricas. Podemos pensar que a Psicologia é uma ciência da saúde, considerando a definição da Organização Mundial de Saúde (OMS) que define saúde não apenas como a ausência de doença, mas como a situação de perfeito bem-estar físico, mental e social. Podemos problematizar a idéia de perfeito bem-estar (Segre, 1997), mas o interesse em mencionar a definição da OMS é que esta percepção de saúde promove uma indissociabilidade entre físico, mental e social. Essa definição de saúde acolhe melhor a complexidade que define o campo científico da Psicologia. Esta deve e precisa pensar nos impactos do mundo contemporâneo sobre as subjetividades. As novas tecnologias biomédicas associadas às novas formas de mídia promovem verdadeiras revoluções subjetivas, modificando as experiências, físicas, mentais e sociais, ou seja, promovendo novas formas de saúde e de doença. Interessa-nos pensar sobre as possíveis influências da mídia nas subjetividades a partir do olhar da ciência psicológica. Mas, como tarefa preliminar, é preciso definir mídia.

Mídia e subjetividades: uma história de co-dependência

Mídia refere-se aos meios de comunicação em geral, que atingem a grande massa, abrigando, pois, os grandes veículos com reconhecida influência sobre as pessoas. O termo mídia está vinculado aos processos de produção, circulação e recepção de mensagens. A criação da mídia, como meio de comunicação em massa, representa um aspecto constitutivo do nascimento da sociedade de massa no fim do século XIX (Silveira, 2004). A mídia na contemporaneidade engloba os veículos de notícias, o campo da publicidade, a produção de filmes, novelas e minisséries. Aparece, ainda, no campo da rede virtual, sobretudo na internet.

Não podemos esquecer que o ponto de partida para a comunicação em larga escala foi o nascimento da imprensa. Criada no fim do século XIV, por Gutenberg (1390-1468), ela estampou novo modo de lidar com o conhecimento e a informação: o contato com o universo intelectual não é mais privilégio de poucos, já que cada indivíduo pode ter acesso aos livros. O primeiro desafio da recém invenção é a impressão da Bíblia, realizada no ano de 1456. É importante ressaltar que o invento de Gutenberg tornou os livros mais baratos, viabilizando, assim, a circulação do conhecimento (Burke, 2003). Os livros manuscritos eram caríssimos, uma vez que exigiam um trabalho manual lento, que produzia poucos exemplares. O aumento do número de exemplares acelera a circulação do conhecimento e possibilita a produção de mais conhecimento. Durante os primeiros 150 anos da imprensa foram publicados livros e folhetos; a publicação de jornais foi posterior. Ela relacionou-se ao desenvolvimento dos correios, que possibilitaram maior e mais rápida comunicação entre regiões distantes, tornando urgente a divulgação das notícias de diferentes locais (Burke, 2003).

As histórias da imprensa e da subjetividade, enquanto experiências de liberdade individual, são correlatas. Podemos pensar a criação da imprensa como um dos fatores que possibilitaram o surgimento da experiência subjetiva e a valorização do espaço privado. Assim, a imprensa não só influencia nos modos de subjetivação, mas também cria ou contribui para a criação de subjetividades.

Os eclesiásticos temiam que a imprensa estimulasse leigos a estudarem textos religiosos por conta própria, em vez de acatar o que lhes dissessem as autoridades; ou seja, temiam a influência da divulgação do conhecimento nas subjetividades. Podemos questionar os motivos da Igreja em recriminar a imprensa, mas não podemos negar que a circulação do conhecimento transforma a subjetividade.

Burke (2002) reflete sobre os problemas causados pela imprensa de Gutenberg: a chamada "explosão" da informação é uma metáfora para a pólvora, que se alastra e destrói. Nas palavras de Burke:

A informação se alastrou "em quantidades nunca vistas e numa velocidade inaudita". Alguns estudiosos logo notaram as desvantagens do novo sistema. O astrônomo humanista Johann Regiomontanus observou, por volta de 1464, que os tipógrafos negligentes multiplicariam os erros. Outro humanista, Niccolò Perotti, propôs em 1470 um projeto defendendo a censura erudita. Mais sério ainda era o problema da preservação da informação e, ligado a isso, o da seleção e crítica de livros e autores. Em outras palavras, a nova invenção produziu uma necessidade de novos métodos de gerenciamento da informação (Burke 2002, p. 174).

Assim, a criação da imprensa possibilitou o crescimento e divulgação do conhecimento, uma vez que estabelece condições para o aumento do diálogo entre os pensadores de regiões distantes. Seus efeitos sobre a subjetividade e suas inscrições na realidade são também inegáveis, favorecendo, inclusive, a própria criação e valorização de um espaço do subjetivo, do íntimo. É importante salientar que a Reforma Protestante, emergente na primeira metade do século XVI, vem corroborar o ideal moderno de liberdade individual, pois, em consonância com a imprensa, propõe a tradução da Bíblia, possibilitando, assim, um diálogo direto do fiel com os textos bíblicos. A religião pôde, desta maneira, enveredar pelos caminhos da intimidade e tornar-se uma questão particular. A intervenção dos sacerdotes na leitura dos textos sagrados era cada vez menor, pois as pessoas podiam lê-los por si mesmas. Podemos pensar que o surgimento da imprensa viabilizou a Reforma. Assim, o livre exame da Bíblia – oportunizado também pela publicação de Bíblias de bolso e pela publicação do material em vários idiomas – e a possibilidade de o indivíduo falar com Deus diretamente configuram uma das mais importantes experiências que estão na essência dos ideais modernos de liberdade individual, que possibilita a consolidação da esfera do subjetivo.

O objetivo dessa pequena digressão histórica é apontar a relação íntima entre mídia e subjetividade, considerando a mídia como descendente direta da imprensa de Gutenberg. Apresentada a relação originária, faz-se necessário realizar um salto histórico para se pensar nas influências da grande mídia eletrônica, representada pela TV, nas formas e modos de os sujeitos se organizarem no mundo.

Encontramos alguns estudos na área da Psicologia que tratam do tema da influência da mídia nos sujeitos. As pesquisas versam sobre a questão da violência, da moda, das relações parentais, ou seja, trabalham as diferentes possibilidades de os programas de televisão influenciarem a subjetividade. A mídia televisiva conta com o apelo das imagens que simulam a realidade cotidiana para influenciar os sujeitos. No Brasil a influência das telenovelas se faz sentir nas diferentes camadas sociais. Essas influências, por vezes, ampliam horizontes discursivos, quando as novelas tratam de temas polêmicos como distúrbios alimentares, loucura, homossexualismo e outros, tentando apresentar para os telespectadores os enigmas e sofrimentos presentes nessas realidades. No entanto, para além da intenção responsável dos produtores, temos as influências contínuas nos modos de vestir, de se comportar e de se relacionar. Os dramas dos personagens das novelas oferecem padrões de relacionamento e de comportamento. Temos, ainda, a questão das propagandas que, alimentadas pela sociedade de consumo, objetivam uma manipulação direta das subjetividades. Podemos afirmar que a mídia é, atualmente, um dos mais importantes instrumentos sociais, pois seu poder produz esquemas dominantes de significação e interpretação do mundo. A mídia define o conteúdo e a forma do pensamento e da ação do sujeito. Alguns pesquisadores do campo das Ciências Humanas investem no trabalho de estudar a influência da mídia na subjetividade. Andrade e Bosi (2003), por exemplo, estudam a influência da mídia no comportamento alimentar feminino. Para os autores, "o ideal de corpo perfeito preconizado pela nossa sociedade e veiculado pela mídia leva as mulheres, sobretudo na faixa adolescente, a uma insatisfação crônica com seus corpos" (Andrade & Bosi, 2003). Desta forma compreendemos a referência platônica de Bourdier (1997) em sua análise dos efeitos da mídia sobre a subjetividade como tradução da idéia do filósofo grego para o horizonte da contemporaneidade. Assim, a afirmação "somos marionetes da divindade" anuncia a mídia como detentora do poder de manipular as cordas que sustentam os sujeitos/marionetes.

Já Njaine e Minayo (2004) realizam um levantamento bibliográfico sobre os estudos nacionais e internacionais que se dedicam ao tema da influência da violência veiculada na mídia sobre a subjetividade. Segundo os autores, "na América Latina e Brasil os estudos sobre a questão da violência na mídia, produzidos pelo campo da saúde, são escassos se comparados aos investimentos realizados na América do Norte, Europa e Ásia"(Njaine & Minayo, 2004). Seguindo essa trilha de analisar a influência da mídia sobre a subjetividade, Contrera (2002) trabalha a difusão do pânico realizada pela mídia. A autora se inquieta com o interesse da mídia jornalística pelas catástrofes.

O maior veículo de influência sobre a subjetividade, no entanto, talvez sejam as propagandas, que criam hábitos e verdades. O poder dos anúncios comerciais de produzir o consumo de produtos é massivo sobre os indivíduos. As propagandas determinam a utilização de produtos e ideais de vida. Todos conhecem as famílias perfeitas dos comerciais de cereais oferecidos como refeições matinais. As propagandas capturam e alienam os sujeitos em sua rede de persuasão.

É importante ressalvar que a alienação é um elemento inerente a toda forma de comunicação. Todavia, a alienação impressa no diálogo do sujeito com a mídia é maior, porque não existe um equilíbrio no jogo de forças: a mídia tem mais poder. Podemos pensar em um diálogo quase unilateral. A palavra quase revela que existe uma dependência da mídia em relação ao sujeito, porque se não sensibilizar, se não influenciar o sujeito, o veículo se torna ineficaz.

Toda mídia impressa e televisiva determina modos de existência, de subjetividade e de relacionamento, mas a nova mídia, representada pela internet, amplia o potencial de produção subjetiva. Não podemos negar que a mídia virtual favorece o desenvolvimento de capacidades cognitivas e perceptivas (Belloni, 2005), mas, por outro lado, gera maior dependência no sujeito e pode diminuir o campo das relações concretas, modificando a "textura" das mesmas (Megale & Teixeira, 1998).

 

Mídia, virtualidade e subjetividades: ultrapassando limites

A mídia televisiva possui um forte poder de influência sobre a subjetividade, mas é importante ressaltar que a nova mídia, que conecta o sujeito através da rede da internet, exerce impactos ainda mais eficientes na subjetividade. As tecnologias de comunicação sempre representaram formas de mediar nossa relação com o mundo através da criação de um espaço que captura e contenção da experiência. A carta, a fotografia, o jornal, a secretária eletrônica são formas de tentar segurar o fluir do tempo, já que as experiências ficam gravadas. A mídia televisiva e a internet, além de interferirem na noção de tempo, modificam, também, a experiência do espaço, pois colocam perto o que está longe. A internet é ainda mais eficiente no projeto de ultrapassar as barreiras do tempo e do espaço, pois possibilita uma comunicação em tempo real com uma pessoa em qualquer lugar da Terra, sendo inclusive possível ver o interlocutor – basta ter uma webcam. Kumar anuncia que "no [novo estágio] do modo de informação, o sujeito não está mais localizado em um ponto no tempo/espaço absoluto, desfrutando de um ponto de observação fixo, do qual possa racionalmente calcular suas opções" (Kumar, 1997, p. 139). O sujeito se pulveriza em diferentes espaços simultaneamente; não há limites.

Silveira (2004) revela que é tarefa fundamental da Psicologia compreender a influência da mídia virtual na formação e transformação da subjetividade, "em particular a sua influência nas relações de trabalho e nas formas emergentes de relacionamentos pessoais através dos meios digitais" (Silveira, 2004).

Mas será que podemos pensar na internet como mídia? Pereira e Moraes (2003) defendem a tese da internet como uma nova mídia. Para os autores é necessário ampliar as definições de comunicação, pois o termo "exprime a totalidade do processo que coloca em relação duas (ou mais) consciências".Assim, "não se trata de meros emissores e receptores, mas de agentes num processo comunicativo dinâmico e flexível" (Pereira & Moraes, 2003). Embora a mídia tradicional apresente um sistema de comunicação de mão única, a comunicação, no seu processo real, fundamenta-se na troca ativa entre os dois lados implicados no processo. Nesse sentido, a mídia virtual se aproxima mais do processo de comunicação que contempla uma interatividade.

Desta forma, podemos interrogar sobre os impactos dessa nova mídia sobre as subjetividades. Como revela Moreira (2009), "a explosão de informações, a comunicação mundial e a cibernética constituem exemplos da novidade que a experiência subjetiva tem que abraçar no mundo atual"(Moreira, 2009, p. 95). A cada momento o mundo contemporâneo apresenta uma nova tecnologia que o sujeito precisa compreender. Não podemos negar, por exemplo, que a associação entre as novas tecnologias biomédicas e de comunicação influenciam diretamente as experiências que temos de nosso corpo. As ofertas de cirurgias disponibilizam uma relação com o corpo em que este pode ser visto como um rascunho a ser melhorado; através da cirurgia é, ainda, possível esconder a passagem do tempo. O corpo seria o espaço da liberdade: liberdade de expressão, liberdade de produzir a beleza ideal, livre das marcas do tempo (Vaz, 2006).

A relação do sujeito com o tempo é presentificada através da relação com o próprio corpo e na relação histórica com os outros. As novas tecnologias biomédicas alteram a relação com o corpo e a mídia virtual interfere na relação com o campo do outro promovendo, pois, ou uma negação do tempo, ou uma aceleração do mesmo. A experiência de escrever uma carta para outro país no século XVIII coloca em cena o tempo da espera. A comunicação por meio da internet convida à experiência do imediatismo, alimentando a impaciência com os movimentos do tempo. O ciberespaço altera nossas noções de tempo e de espaço, influenciando, pois, os processos de subjetivação. A suspensão do fluir temporal que o ciberespaço possibilita sustenta uma das características da contemporaneidade: uma negação do tempo passado e uma não conexão com o futuro (Drawin, 2003). Vive-se a imediaticidade do agora; não há História, pois não importa o passado ou o futuro. O presente adquire uma dimensão tirânica e perversa. O futuro deixou de ser uma aposta, o passado não é respeitado como referencial. Só resta a vacuidade do agora, e a conexão com a internet oferece várias possibilidades de aproveitar este presente.

Sabemos que o sujeito se organiza através do seu corpo, no espaço e no tempo, mas este corpo, na modernidade líquida (Bauman, 2001), não responde a um lugar de necessidade: apresenta-se como um espaço de liberdade, pois no ciberespaço o sujeito pode assumir a identidade que desejar e conectar-se imediatamente a qualquer lugar; o tempo e o espaço não se configuram como limites. A realidade virtual apresenta uma nova possibilidade de relação com o mundo através da simulação do real. Inserido na cibercultura, o sujeito se depara com uma nova forma de se relacionar com a realidade. Através da realidade virtual, o sujeito insere-se num mundo que apresenta inúmeras possibilidades de realização de seu desejo, um mundo que não possui barreiras. Apesar de existir uma diferença entre a imagem virtual e a imagem de representação do real, o sujeito, confundindo o que é da ordem emocional com o que é virtual, lida com as imagens virtuais como possibilidades de concretizarem o mundo ideal almejado. No ciberespaço, as imagens virtuais são uma simulação do real. Nele "a imagem não mais representa o real, mas ela o simula" (Gevertz, 2002, p. 267). Esta simulação não pretende representar este real, mas, de fato, sê-lo. Gevertz (2002) diz que "a lógica da simulação não pretende mais representar o real com uma imagem, mas, sim, sintetizá-lo, em toda sua complexidade. "(Gevertz, 2002, p. 267).

Simulando o real, o sujeito passa a viver ficcionalmente uma realidade de infinitas possibilidades. O sujeito, inserido no ciberespaço, pode construir e reconstruir um mundo, ainda que virtual, à sua maneira. Podemos perguntar se essa característica da realidade virtual, a possibilidade de simulação do real, aparece no campo da mídia virtual, e como pode, por conseguinte, influenciar o sujeito.

A nova mídia não tem espaço físico determinado, a não ser pelos milhares de computadores pessoais interconectados, assim as limitações são menores. O sujeito pode convidar vários outros para a conexão, para interação. Os limites de tempo, espaço e da realidade são superados no espaço virtual.

 As propagandas veiculadas na mídia virtual, através da possibilidade de simulação do real, ganham um potencial de realidade e de proximidade de cada indivíduo que são verdadeiramente irresistíveis. O apelo da mídia virtual é ainda maior porque produz uma ficção de liberdade e exclusividade. Cada sujeito tem um acesso ilimitado e exclusivo ao campo da informação. A informação é só minha e posso falar o que desejar sobre ela. As ofertas de propagandas estão à disposição do desejo do sujeito; não são impostas como na mídia televisiva. O sujeito, com um simples clicar no mouse, pode abrir um horizonte de informações com total autonomia e exclusividade, e muitas vezes tem o direito de criticar o site que disponibilizou a informação.

Assim, a mídia virtual interfere em nossas noções internas de tempo, espaço e liberdade, promovendo verdadeiras revoluções na lógica clássica dessas noções. O espaço é ilimitado, a limitação é da memória de seu computador. A liberdade alcançou níveis não pensados pelos revolucionários modernos. A noção de tempo apresenta-se sob dupla forma, como a busca pelo imediato, pelo urgente, sem o tempo da espera, e como negação do fluir do tempo através da recusa de uma conexão histórica com o outro, pois a rede do virtual captura e aprisiona o sujeito em sua solidão, mas essa solidão pode ser transmitida via satélite.

Freire Filho (2007), em seu texto "Sociedade do espetáculo à sociedade da interatividade", revela que a mídia na internet promete turvar ou dissolver a separação entre produtor e consumidor. O sujeito pode assistir ao anúncio de um produto e no mesmo site comprar o produto. Propaganda e consumo associados na mesma rede da internet, disponível para capturar os desejos e os sujeitos. Podemos afirmar que a mídia da internet é ainda mais eficiente no processo de produção de subjetividades.

 

Considerações finais

A mídia pela internet promove mudanças em noções fundamentais e constitutivas da subjetividade, e modifica a relação com o próprio corpo, com o tempo, com o espaço e com a idéia de autonomia. Para Megale e Teixeira (1998), na virtualidade surge um"novo ordenamento das relações entre os indivíduos, extremamente marcado por uma prevalência da imagem e por uma desnecessária participação dos indivíduos em efetivas relações" (Megale & Teixeira, 1998, p. 49). Para estes autores a mídia virtual pode produzir um tipo de subjetividade ilusoriamente marcada por uma individualidade e um sentimento de auto-suficiência. A cena virtual apresenta um campo de possibilidade infinita de comunicação que convida o sujeito a se retirar dos limites de seu corpo e navegar pelo ciberespaço em tempos e espaços ilimitados.

Segundo Megale e Teixeira (1998) a nova mídia, ou seja, a internet pode produzir sujeitos desencarnados, sem história que os conecte com os outros no cotidiano da vida.

[O]s sujeitos sem tempo, sem história, fabricados por um espaço virtual mais do que fabricando este espaço. Ficaríamos sem saber se cada um de nós é virtual, pois podemos criar antepassados, imaginar e criar pessoas de outro tempo e espaço, mortas anteriormente seja pela sua insuficiência biológica, seja pela palavra (Megale & Teixeira, 1998, p. 49).

 

Assim, podemos pensar que a mídia virtual cria uma espécie de subjetividade exteriorizada, prisioneira em sua solidão, mas sem tempo para a auto-reflexão, já que o importante é conectar-se no ciberespaço. Um Eu que se encontra preso na tela do computador.

 

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