Estudos e intervenções para a promoção da velhice satisfatória

 

Sueli Aparecida Freire1
Marineia Crosara de Resende2

Universidade Federal de Uberlândia e Centro Universitário do Triângulo Uberlândia-MG
(Brasil)

1 Psicóloga, Professora da Universidade Federal de Uberlândia, Doutora em Psicologia Educacional pela UNICAMP.

2 Psicóloga, Mestre em Gerontologia e Doutora em Educação pela UNICAMP, Bolsista de CNPQ.

 

RESUMO

O processo de envelhecimento normal, marcado por diminuição da plasticidade comportamental, aumento da vulnerabilidade e da probabilidade de morte, gera efeitos diferentes para cada indivíduo que pode encará-lo de forma positiva ou negativa. Os estudos na área da Gerontologia sobre o envelhecimento normal, patológico e bem-sucedido têm apontado para a possibilidade de se prevenir muitas das limitações decorrentes do processo e de se promover boa qualidade de vida na velhice, indicada por fatores objetivos e subjetivos. Como as ações e investigações sobre essa fase da vida têm indicado a necessidade de uma abordagem multidisciplinar dos seus problemas, a Psicologia pode trazer importantes contribuições para a construção de programas de pesquisa e de intervenção e para a formação de profissionais interessados em trabalhar as questões do envelhecimento. O grande desafio a ser vencido pelos profissionais e pela sociedade é de criar condições para um envelhecimento satisfatório acessíveis a toda a população.

Palavras-chave: Psicologia do Envelhecimento; Gerontologia; Velhice

 

Studies and interventions for the promotion of the satisfactory age

Abstract

The process of normal aging, marked by decrease of behavioral plasticity, increase of vulnerability and probability of death, it take a different effect for each person, that can face it in a positive or negative way. The Gerontology studies' show distinctions between normal, pathological, and successful aging, this suggests the possibility of taking precautions to reduce many of the current limitations of the aging process and promoting the good quality of life in the old age, indicated by objective and subjective factors. As the actions and investigations on this stage of life have been indicating the need of an multidisciplinary approach to the problems of aged, Psychology can bring important contributions for the construction of research programs and interventions and for providing additional knowledge for the interested professionals' in working the subjects of the aging. The great challenge for gerontology professionals and for society is to create conditions for an accessible aging for the whole population.

Key-words: Psychology of Aging; Gerontology, Aging

 

Na atualidade, a maioria das pessoas tem conhecimento de que o ser humano pode viver mais e melhor e isso acaba acarretando um desejo de também poder viver muitos anos, acompanhado do temor do fantasma da velhice marcada pelas doenças e por inúmeras dependências. Em função disto, a preocupação das pessoas com a boa qualidade de vida na velhice é cada vez maior.

O receio de viver com limitações físicas, mentais e sociais tem levado a uma procura por profissionais da saúde com o intuito de buscar informações sobre estilos de vida saudáveis e de serviços que facilitem a prevenção de doenças e o adiamento da decadência física e mental para os anos mais próximos possível do final da vida. Em geral, ao enfatizarem as possíveis limitações associadas ao envelhecimento, as pessoas deixam de considerar a possibilidade de uma velhice satisfatória, bem-sucedida e adaptada às transformações naturais dessa etapa da vida.

Para fazer frente a essas inquietações e incertezas, as ciências humanas, sociais e da saúde têm contribuído para aumentar o conhecimento que se tem acerca do processo de envelhecimento e das condições que favorecem e que dificultam a promoção da boa qualidade de vida na velhice. Questões relativas aos fatores que atuam no processo de envelhecimento psicossocial bem-sucedido e àqueles que contribuem para a manutenção da saúde e a prevenção e o controle da ocorrência de doenças crônico-degenerativas, têm sido investigadas pelos pesquisadores e as respostas encontradas transformadas em medidas educativas e de intervenção para a população.

O processo de envelhecimento tem sido visto como um conjunto de transformações ocorridas após a maturação sexual, que culmina nos anos finais da vida e acarreta alterações funcionais e comportamentais. Costuma ser classificado pelos estudiosos da seguinte forma: a) normal ou primário – afeta gradual e cumulativamente todo o organismo, mas de forma diferenciada para cada parte ou função, variando mesmo entre os indivíduos. Resulta em diminuição na capacidade de adaptação e está sujeito à influência de fatores internos e externos ao organismo; b)

De acordo com Featherman, Smith e Peterson (1991), o envelhecimento bem sucedido é uma competência adaptativa do indivíduo e é fenômeno de natureza multidimensional. Suas dimensões mais representativas são: a) a emocional, envolvendo, por exemplo, a presença de estratégias e habilidades para lidar com eventos estressantes; b) a cognitiva, expressa na capacidade para resolução de problemas; e c) a comportamental, em termos de desempenho e competência social.

Rowe e Kahn (1998) estabeleceram três critérios para definir velhice bem sucedida, os quais são usados como parâmetros para a avaliação de velhice normal e patológica. Segundo os autores, uma velhice bem sucedida é caracterizada por ausência de doença física e mental, de incapacidade funcional e de fatores de risco, tais como hipertensão, diabetes e deficiência física; por manutenção do funcionamento físico e mental e por engajamento ativo com a vida. Esse padrão é possível para aqueles idosos que mantém excelente saúde física e mental, autonomia, independência, envolvimento ativo com a vida e produtividade. De acordo com os autores, o número de pessoas capazes de atingir tal padrão é muito pequeno.

            Trata-se de pessoas que conservam seus papéis sociais; descrevem-se como satisfeitos e psicologicamente ajustados. São reconhecidos pelos demais por oferecerem contribuições à sociedade ou ao seu grupo familiar e por serem modelos de velhice boa e saudável.

De acordo com a perspectiva life-span do desenvolvimento humano, existem diferenças importantes entre os tipos de envelhecimento além de muita variabilidade no processo individual, diferenciado com relação a aspectos mentais, sociais e de comportamento. Considera-se que há reserva latente de capacidades e aptidões, que podem ser ativadas através da aprendizagem, exercícios ou treinamento, especialmente em condições favoráveis de ambiente e saúde.

            Dentro desse paradigma, a diminuição da plasticidade comportamental, isto é, da capacidade de mudar para adaptar-se ao meio, pode ser compensada pela pragmática, que se baseia no conhecimento adquirido ao longo da vida e na tecnologia. E embora o equilíbrio entre ganhos e perdas torne-se menos positivo na velhice, o self permanece resiliente graças aos mecanismos de auto - regulação da personalidade que se mantêm intactos até anos mais avançados. (Baltes e Baltes, 1990).

Como se pode ver, o envelhecimento normal, marcado por diminuição da plasticidade comportamental, aumento da vulnerabilidade a doenças e da probabilidade de morte, mantém o potencial para o desenvolvimento, com suas características de heterogeneidade, multidimensionalidade e multicausalidade associadas a este processo. Todo esse processo pode gerar efeitos diferentes para cada pessoa, dependendo de suas experiências e das suas concepções e crenças sobre o envelhecimento. Assim, o indivíduo pode encarar a chegada à velhice de forma positiva, como ocasião para colheita dos frutos plantados ao longo de toda a sua existência, ou negativa, como período de isolamento e de desistência da vida. (Neri, 2001a).

            Os estudos na área da Gerontologia sobre o envelhecimento normal, patológico e bem-sucedido têm apontado para a possibilidade de se prevenir muitas das limitações decorrentes do processo. O desafio que surge, então, para os indivíduos, profissionais ou não, e para a sociedade é de promover a boa qualidade de vida na velhice, de forma que os anos vividos tenham significado e dignidade para todos. (Papaléo Neto, 2002; Paschoal, 2006).

            Qualidade de vida é um evento que tem múltiplas dimensões e é multideterminado. Diz respeito à adaptação de indivíduos e grupos humanos, em diferentes épocas e sociedades. Avaliar a qualidade de vida a partir de critérios objetivos, como condição financeira, e subjetivos, como satisfação e crescimento pessoal, significa comparar condições disponíveis com as consideradas desejáveis pelo indivíduo e pela sociedade. Os resultados são expressos por índices de desenvolvimento, bem-estar, desejabilidade, prazer ou satisfação (Neri, 2001c).

            Lawton (1991) construiu um modelo de qualidade de vida amplamente conhecido na literatura gerontológica internacional, contendo quatro dimensões conceituais: competência comportamental, condições ambientais, qualidade de vida percebida e bem-estar subjetivo.

            A competência comportamental refere-se ao desempenho do indivíduo em seu cotidiano e de seu funcionamento quanto à saúde, funcionalidade física, cognição, comportamento social e utilização do tempo

            A dimensão das condições ambientais refere-se a fatores objetivos, como por exemplo, as condições econômicas e do ambiente natural. Este domínio tem relação direta com a competência comportamental uma vez que atua como facilitador ou como obstáculo no desempenho de atividades do cotidiano. Dessa forma, o ambiente deve ser compatível com as competências do idoso, compensando perdas, prevenindo acidentes, fornecendo estímulos e desafios e promovendo autonomia e independência (Neri, 2001c).

            A dimensão qualidade de vida percebida refere-se à avaliação subjetiva que o indivíduo faz da sua competência comportamental, a partir de seus próprios parâmetros. Medidas tais como saúde percebida, alterações cognitivas percebidas e o senso de auto-eficácia são exemplos relacionados a este domínio.

            O último domínio, o bem-estar subjetivo, reflete a avaliação da pessoa acerca do conjunto e das relações entre os demais domínios. Trata-se de um construto que inclui um componente cognitivo, referente à avaliação da pessoa acerca de sua vida como um todo ou de seus diversos domínios, e um componente emocional, afetivo, relacionado aos valores positivos (prazer) e negativos (desprazer) atribuídos à vida, e o equilíbrio entre eles. (Lawton, 1991; Diener, 1984; Diener e Suh, 1998; Neri, 2001c).

            Os diferentes aspectos que caracterizam o processo de envelhecimento forçam os profissionais bem como a sociedade em geral a buscar medidas que propiciem a abrangente atenção de que necessita o idoso, especialmente no campo da saúde, entendida aqui não apenas como o controle das doenças e sim como o bem-estar físico, psíquico e social, ou, como coloca Papaléo Netto, “... a melhora da qualidade de vida”. (2002, p; 6).

            Como as ações e investigações sobre essas questões têm indicado, há necessidade de uma abordagem multidisciplinar dos problemas da última fase do desenvolvimento chamada de Velhice, a fim de atender integralmente a pessoa idosa com o envolvimento de todos os profissionais da saúde, dentre eles o psicólogo.

            O psicólogo pode trabalhar com os idosos para incentivar a manutenção de um estilo de vida saudável, o que reduz a chance de ocorrência de condições que levam à patologias. Além disso, pode visar, em seu trabalho com idosos, o reforçamento dos recursos do próprio indivíduo para a preservação da saúde mental; estimular a sua participação em atividades educacionais e sociais, a troca de apoio social, a criação de novos interesses e o estabelecimento de laços afetivos; apoiar o engajamento em atividades que estimulem a criatividade, a sociabilidade e a participação comunitária, contribuindo assim para a realização de metas pessoais e dando um sentido pessoal à vida. (Neri, 2004).

            Nas situações onde já há dificuldades estabelecidas, o psicólogo também pode trazer importante contribuição, como no atendimento de idosos com doenças crônicas, criando programas de educação para a saúde e ajudando tais pessoas a compreenderem o significado da doença em suas vidas, a lidar com o sofrimento e o incômodo associados a ela, e a elaborar os sentimentos associados à dor e à própria morte.

            Em organizações ligadas à saúde, como hospitais e instituições de longa permanência, o psicólogo poderia atuar junto à própria equipe de saúde, trabalhando as suas crenças e angústias em relação à velhice em geral e, em especial, aos significados de seu próprio processo de envelhecimento. É importante trabalhar tais questões junto aos profissionais de saúde devido à influência que têm em suas vidas pessoais e à interferência que podem provocar no tipo de atendimento que é dado aos idosos.

            Além do trabalho junto às equipes, o psicólogo contribui para a criação, implantação e avaliação de programas de intervenção que visem a prevenção do envelhecimento patológico e a educação para uma velhice saudável, bem como para o acompanhamento de serviços já oferecidos que têm por base os cuidados que devem ser prestados aos idosos com capacidade funcional limitada, com perda de autonomia e independência.

            Os estudos em Psicologia do Envelhecimento podem ser úteis em trabalhos desenvolvidos nos diversos setores da comunidade, como escolas, associações de bairros, organizações governamentais e não-governamentais, abordando temas como os fatores e estratégias que promovem o envelhecimento saudável e a melhoria da qualidade de vida na velhice. Além disso, os avanços feitos pelos pesquisadores no campo da Psicologia do Envelhecimento têm contribuído para desmistificar o processo de envelhecimento e orientar grupos vulneráveis da comunidade e seus familiares a lidar com as dificuldades que podem surgir com o avançar dos anos de vida.

            A Psicologia do Envelhecimento também pode trazer importantes contribuições para a construção de programas de pesquisa e para a formação de profissionais não-psicólogos interessados em trabalhar as questões do envelhecimento, como as alterações cognitivas, afetivas e sociais, e os eventuais problemas clínicos, sociais, profissionais e educacionais que podem ocorrer nesse processo. A partir daí pode-se buscar alternativas de atuação junto a pessoas que estão envelhecendo, levando em consideração suas especificidades e a necessidade do uso de estratégias para enfrentá-las; as alterações ocorridas nas famílias e comunidades; e as mudanças do contexto sociocultural e no ambiente onde vivem.

            O psicólogo, preocupado com a boa qualidade de vida na velhice e com o envelhecimento saudável, deve ter como objetivos principais de suas ações a busca e manutenção da autonomia e da independência dos idosos até onde e quando for possível; a sua manutenção em ambiente não institucional e, caso isso não seja possível, a promoção da boa qualidade do ambiente e dos serviços institucionais oferecidos; o incentivo à participação do idoso na comunidade, com o estabelecimento e a manutenção de relações inter e intra geracionais; e a promoção do bem-estar psicológico.

            Além disso, é necessário e fundamental: investigar as principais carências da população idosa, suas características e problemas vivenciados, e propor alternativas de solução para eles; subsidiar a formação e a prática de diferentes profissionais que atuam junto aos idosos; elaborar programas para a promoção da boa velhice e a prevenção de eventuais dificuldades associadas ao processo de envelhecer; definir quais devem ser as estruturas de apoio, no âmbito psicossocial, educacional e de assistência à saúde da população idosa.

            Pode-se resumir tais idéias referentes à atuação da Psicologia no campo do envelhecimento nos seguintes desafios com os quais o psicólogo tem que lidar:

Lembrando que tanto o indivíduo quanto a sociedade são dinâmicos, passando por diversas mudanças às vezes em curto intervalo de tempo, o que pode gerar novas demandas a serem atendidas, resta à sociedade e aos profissionais um grande desafio a ser vencido: criar condições para um envelhecimento saudável do ponto de vista biopsicossocial, acessíveis, de forma justa e humana, a todas as pessoas, independentemente do seu nível socioeconômico e cultural.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

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Featherman, D. L., Smith, J., & Peterson, J. G. (1991). Successful aging in a post-retired society. Em: P. B. Baltes & M. M. Baltes (eds.) Successful aging. Perspectives from the behavioral sciences. (pp. 50-93). Cambridge: Cambridge University Press.

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Paschoal, S. M. P. (2006). Qualidade de vida na velhice. Em: E. V. Freitas; L. Py; A. L. Neri; F. A. X. Cançado; M. L. Gorzoni; S. M. Rocha. Tratado de Geriatria e Gerontologia. (pp.147-153). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

Rowe, J. R., & Kahn, R. L. (1998). Successful aging. New York: Pantheon Books.