PROGRAMA DE EDUCAÇÃO TUTORIAL (PET): UMA ALTERNATIVA PARA A MELHORIA DA GRADUAÇÃO

Rosa Maria Tosta

 

Profa. Associada da Faculdade de Psicologia, Doutora em Psicologia Clínica, tutora do grupo e orientadora do trabalho.

 

Diogo de Lima Calazans
Giselle Souza de Santi
Isadora B. Tumulo
Karina Brochado
Lívia Farabotti Faggian
Luiza Cardinalli de Faria
Maria Lyra Muller
Marina Valente G. Cecchini
Renata Monteiro Machado Ishida
Renato Ferreira da Fonseca
Sharon Dymetman Sanz
Tatiana Cristina Henrique Vieira
Vanessa Palazzin

Bolsistas do grupo PET em 2005
Faculdade de Psicologia
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
(Brasil)


Resumo

O presente artigo trata sobre o Programa de Educação Tutorial (PET), um programa abrangente, financiado pela Secretaria de Ensino Superior (SESu) do Ministério da Educação e Cultura (MEC), que incentiva atividades extracurriculares com a finalidade última de melhoria da graduação no país. Desde a sua criação, o Programa passou por diversas modificações estruturais e ideológicas, acompanhando as mudanças históricas ocorridas no modelo de Universidade. O PET tem como objetivo principal desenvolver ações que promovam uma formação ampla e de qualidade aos alunos envolvidos direta ou indiretamente com o programa, através de atividades de ensino, pesquisa e extensão intra e multidisciplinares, evitando a fragmentação e especialização precoce. Além disso, esses trabalhos possibilitam uma troca de saberes entre a sociedade e o meio acadêmico, propiciando uma transformação social e um enriquecimento do conhecimento científico. Nesse contexto, o PET - Psicologia da PUC-SP vem realizando atividades que buscam a concretização desses ideais.

Palavras chave: PET, Universidade, Educação.

 

Abstract

This article is about the Tutorial Education Program (PET), an overall program financed by Secretaria de Ensino Superior (SESu) from Ministério da Educação (MEC). PET supports extra activities in order to improve the graduation system in Brazil.Since its creation, the Program has passed through many structural and ideological modifications due to historical changes which have occurred in the University. The aim of the Program is the development of actions that promote a qualified and wide formation of the students involved directly or indirectly with the Program, through teaching activities, research, extension in correlated areas avoiding early fragmentation and specialization.Besides, those activities, referred above, allow an exchange of knowledge between society and the accademic area, promoting a social transformation and an improvement of scientific knowledge.In this context, PET PUC – SP has been doing activities that search for the achievement of these goals.

Key words: PET, University, Education

 

Resumen

El presente artículo trata de un Programa de Educacion Tutorial (PET) financiado por la Secretaria del Ensino Superior (SESu) del Ministério de la Educacion y Cultura (MEC), que incita algunas actividades extracurriculares con la finalidad de mejorar la graduación del pais. Desde su criación, el Programa tuvo muchas modificaciones tanto estruturales como ideológicas, estos cambios acompañaron cambios historicos que ivan passando en la Universidad. El Programa tiene como objetivo principal desarollar aciones que ayuden a promover una formación ampla y con calidad a los alumnos que estan directo o indirectamente conectados al programa, atraves de actividades de ensino, pesquisa y extensión intra e multisciplinares, evitando la fragmentación y especialización precoce. Aparte, estos trabajos posibilitan un cambio de informaciones entre la sociedad e el medio academico, propiciando un cambio social e un mejor conocimiento científico. En este contexto, el PET - Psicología da PUC-SP viene realizando actividades que buscan garantir estos ideales.

Palabras-clave: PET, Universidad, Educacion.

 

INTRODUÇÃO

Considerando-se a Universidade uma instituição responsável pela formação profissional e científica que tem como objetivo a conservação e progresso dos diversos ramos do conhecimento, a determinação de seu funcionamento e papel na sociedade é de suma importância.

Sendo assim, diversos modelos de ensino superior já foram pensados e implantados ao longo dos anos, em busca de um projeto que atendesse às demandas sociais. Porém, uma vez que a Universidade é um produto histórico que solidifica práticas e interesses complexos e contraditórios, não há como concretizar estes ideais apenas através de decretos-lei; é necessário que a sociedade faça contínuas reflexões a esse respeito, a partir de atividades práticas.

Nosso objetivo é apresentar o Programa de Educação Tutorial (PET) a partir da experiência do grupo PET de Psicologia da PUC - SP como uma alternativa que possibilita a transformação da Universidade almejada pelos projetos de Reforma Universitária e que não é contemplada em outros programas.

O Programa de Educação Tutorial existe em diversas Instituições de Ensino Superior (IES), públicas e particulares, de todo o Brasil, reunindo um total de 299 grupos de diversas áreas. O Programa é direcionado a alunos regularmente matriculados nos cursos da graduação, sendo estes selecionados pelas IES e organizados em grupos que recebem orientação acadêmica de professores -tutores. Atualmente os Grupos PET possuem em torno de 3.177 alunos bolsistas.

O PET tem como base a integração da tríade ensino - pesquisa - extensão, tendo como objetivo a melhoria da graduação. Para isso, o Programa pretende envolver os seus integrantes num processo de formação integral, propiciando-lhes uma compreensão abrangente e aprofundada de sua área de estudos a partir do incentivo ao engajamento em atividades acadêmicas e extracurriculares.

Os alunos bolsistas devem também incentivar a participação dos demais alunos das universidades em eventos acadêmicos e reflexões relacionadas ao Ensino Superior no Brasil como, por exemplo, o Projeto da Reforma Universitária e as Diretrizes Curriculares.

Uma importante característica do PET é o funcionamento conjunto, uma vez que os grupos são compostos por no máximo 12 integrantes bolsistas, podendo incluir alunos colaboradores e/ou voluntários. Todos os grupos possuem atividades de caráter coletivo, desenvolvendo nos alunos bolsistas a habilidade de trabalhar em equipe, uma dentre as muitas características fundamentais para profissionais de diversas áreas.

Levando em conta esse contexto, iniciaremos uma reflexão a respeito da relevância social e acadêmica do PET, explicitando o histórico e objetivos do Programa, sua relação com o desenvolvimento do papel da Universidade e as atividades desenvolvidas pelo PET - Psicologia da PUC - SP.


HISTÓRICO DO PROGRAMA

O Programa de Educação Tutorial (PET) foi criado e implantado em 1979 pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) com o nome "Programa Especial de Treinamento", sendo rebatizado em 2002 durante o VIII ENAPET (Encontro Nacional dos grupos PET) pelo então Ministro da Educação Prof. Cristovam Buarque. De acordo com o artigo publicado em 1996, denominado Enclaves de Qualidade em Universidades de Massa? O Programa Especial de Treinamento (PET) da CAPES (apud Tasca, 2004, p. 13)


Com o objetivo de melhorar o ensino de graduação e a qualidade dos cursos de pós-graduação, Cláudio de Moura Castro, então Diretor-Geral da CAPES/MEC, implantou o Programa Especial de Treinamento – PET que visava elevar a qualificação de grupos selecionados de alunos da graduação, mediante um intenso e avançado treinamento.


Desta forma, o PET foi criado com o objetivo de melhorar a qualidade do ensino superior, visando a formação de profissionais de alto nível para todos os segmentos do mercado de trabalho, com destaque especial para a carreira universitária.

Em 1997, após um longo processo de aperfeiçoamento, ampliação e consolidação, o Programa encontrava-se inserido em 59 Instituições de Ensino Superior (IES), tendo 317 grupos e tutores, 3556 bolsistas de graduação e 157 bolsas PET de pós-graduação. Nesse período a CAPES contratou o Instituto NUPES – USP (centro temático da Universidade de São Paulo dedicado à pesquisa sobre o Ensino Superior) para o estudo intitulado O Impacto do Programa Especial de Treinamento – PET na Graduação, sob a coordenação da Profa. Dra. Elizabeth Balbachevsky. Essa avaliação tinha como objetivo analisar os indicadores disponíveis sobre o impacto do PET na graduação. Para isso, foram utilizadas informações prestadas por professores - tutores, outros professores que realizam atividades junto ao PET, além de professores não ligados ao PET e alunos.

Algumas conclusões obtidas foram:

Os resultados desta pesquisa corroboram os das pesquisas realizadas até o presente momento. O Programa é bem-sucedido, mesmo quando comparado com os programas de Iniciação Científica (IC), no que se refere ao fornecimento de um ambiente rico para os alunos de graduação nele envolvido.

Os alunos que participam do PET são mais estimulados a participar de seus cursos, freqüentando as aulas, envolvendo-se nas disciplinas e participando em sala de aula. É importante salientar que nessa dimensão os alunos da IC não diferem dos demais alunos dos cursos de graduação.

Pode-se, então, concluir que a estrutura tutorial característica do PET contribui significativamente para enriquecer a experiência dos bolsistas. O mesmo não pode ser afirmado com relação aos programas de IC. Nesse grupo não se verifica um envolvimento diferenciado do aluno com o curso de graduação propriamente dito, mas sim com atividades estritamente relacionadas à pesquisa: participação em pesquisas, produção / apresentação de textos, etc.

Os alunos PET também são bem-sucedidos nessa dimensão e seu perfil se equaliza aos dos alunos IC. O que permite afirmar que o modelo PET oferece um ambiente acadêmico mais abrangente e rico que aquele experimentado por outros alunos de iniciação científica. (...)

Esses resultados são bastante alvissareiros para o Programa. Por eles é possível afirmar que o Programa PET alcançou os resultados centrais a que se propôs – oferecer uma formação mais completa aos alunos que se destacam nos cursos de graduação – sem isolar esse grupo de alunos do corpo da graduação. (Balbachevsky apud Neves, 2005, p.13-14).


Apesar dos resultados da avaliação demonstrarem o sucesso do Programa, os dirigentes da CAPES, sem explicitar suas razões, resolveram reduzi-lo gradativamente até a sua extinção. No ofício circular DPR 020/97 de 22 de dezembro de 1997, a CAPES afirmava que o Programa deveria perder metade das bolsas do grupo (passando de 12 para 6 bolsistas), além da perda total das taxas acadêmicas, das bolsas de pós-graduação e das bolsas para pagamento de professores – visitantes. Além disso, não houve a efetivação dos novos grupos que já haviam sido aprovados no edital do segundo semestre de 1997.

Houve uma mobilização de bolsistas e tutores de todo o país, levando à organização de uma manifestação no dia 12 de março de 1998 em Brasília, diante do prédio do MEC. Uma comitiva de tutores e bolsistas, acompanhados pelo então deputado Ricardo Gomyde (PCdoB – PR), foi recebida em audiência pela CAPES. Foram decididas medidas concretas, como a reconstituição das bolsas ao seu número original (12 por grupo) e a criação de uma comissão com alguns dos membros presentes para estudar possibilidades de preservação do Programa.

Em 1999, uma nova equipe de consultores foi convocada pela CAPES para outra avaliação do PET em todo o país, sendo constituída por três professores tutores do PET e três professores não envolvidos no Programa. O documento resultante ficou conhecido como Relatório da Comissão de Avaliação do Programa Especial de Treinamento.

Neste procedimento, dezesseis IES foram selecionadas aleatoriamente (respeitando-se a regionalidade), de forma que 144 grupos PET (45,4% do total do Programa) foram avaliados de acordo com quatro quesitos: atividades permanentes e relevantes voltadas para graduação; atividades permanentes e relevantes voltadas para pesquisa; atividades permanentes e relevantes voltadas para extensão; impacto na grade curricular.

As conclusões tiradas por essa Comissão foram:


O Programa Especial de Treinamento – PET é uma das iniciativas mais consistentes e produtivas no sentido de estimular os estudantes a melhorar a qualidade do ensino de Graduação no país e as relações com a comunidade, principalmente as ações voltadas para o Ensino Fundamental e Médio.

Os resultados da presente avaliação confirmam o parecer da pesquisa coordenada por Balbachevsky, que conclui "o PET é um programa bem-sucedido no que se refere aos seus alunos bolsistas. As oportunidades de treinamento oferecidas pelo Programa são ímpares, mesmo quando comparadas com outros programas até certo ponto similares".

O PET é um programa complexo e completo e não pode ser avaliado apenas pelo número de pessoas que atinge diretamente. Como Programa institucional e de longa duração o PET melhora o desempenho global do curso no qual se insere, tanto no que tange à eficiência na formação dos estudantes quanto no que se refere à maior produtividade dos professores, mesmo que não estejam diretamente envolvidos no Programa. [os dados apresentados aqui] espelham esta conclusão, já que demonstra que o forte deste Programa é sua atuação na graduação, na extensão e na introdução de melhorias da grade curricular e, portanto, do curso. Como uma das prioridades do país, no âmbito educacional, é melhorar a formação superior (Graduação), um dos mecanismos mais eficazes, instalados no momento, é sem dúvida o Programa Especial de Treinamento. (Neves, 2005, p. 14-15).


Desta forma, mais um instrumento legítimo do ponto de vista acadêmico e científico, em que praticamente metade dos grupos PET foi visitado in loco, confirmava a importância do Programa para a graduação, sugerindo inclusive a sua expansão.

Porém, no mesmo ano a CAPES decretou, através de um ofício endereçado a todas as Universidades, que o Programa PET seria extinto em 31/12/1999. Diante desta notícia, a mobilização dos grupos aumentou: duas moções favoráveis à manutenção do PET foram aprovadas na Assembléia Geral da Reunião Anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e foi criada a Executiva Nacional em Defesa do Programa a partir das reuniões anuais do ENAPET.

Uma nova manifestação pública ocorreu no dia 28/09/1999, paralelamente à primeira audiência pública na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, incluindo uma passeata diante do Palácio do Planalto quando o Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, se despedia do Presidente da Namíbia, Sam Nujoma, ato que teve grande repercussão na mídia nacional e internacional.

Após inúmeras manifestações e audiências públicas, apoios formais de sociedades científicas, matérias em jornais e moções de inúmeras associações e instituições, incluindo SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), ANDES (Associação Nacional dos Docentes de Ensino Superior), UNE (União Nacional dos Estudantes), ANDIFES (Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior), ABRUEM (Associação Brasileira de Universidades Estaduais e Municipais) ABRUC (Associação Brasileira de Universidades Comunitárias), FORGRAD (Fórum de Pró-Reitores de Graduação), ANPG (Associação Nacional de Pós-Graduação) entre outras, o Movimento em Defesa do PET obteve apoio suprapartidário no Congresso Nacional. O Programa foi acolhido pelas comissões de Educação da Câmara e do Senado, conseguindo a sua sobrevivência na SESu/MEC, mais especificamente no DEPEM (Departamento de Projetos Especiais de Modernização e Qualificação do Ensino Superior).

Em maio de 2000, uma nova extinção se configurava com a proposição de mudanças que descaracterizariam o Programa, feitas pelo secretário da SESu, Antônio McDowell de Oliveira. Em novembro de 2000 houve uma nova audiência pública na comissão do Senado Federal, onde o secretário atribuiu a autoria da extinção do PET ao próprio Ministro da Educação. Com a saída do secretário da SESu o Programa manteve a sua forma original.

Apesar das mobilizações terem conseguido com que o Programa não fosse extinto, a bolsa-tutor, as taxas acadêmicas, as bolsas de pós-graduação e o auxílio professor-visitante deixaram de ser pagas. Desde 2001, o PET vem sendo mantido com 8 milhões de reais, valor que representa metade do orçamento geral aplicado em 1998 (equivalente a 16 milhões e 500 mil reais).

Atualmente, a comunidade petiana tem lutado para reconstruir o Programa. Em 2002, foi aprovado o novo Manual de Orientações Básicas do PET, que incorporou ao Manual de 95 as resoluções aprovadas no V e VI ENAPET. Em junho de 2005, o MEC publicou as portarias 647/2002 e 648/2002 estabelecendo as diretrizes do Programa e constituindo a Comissão Nacional de Acompanhamento e Avaliação do PET, permitindo a retomada da avaliação nacional e, conseqüentemente, o reconhecimento da qualidade do Programa. Além disso, foi aprovado no âmbito da Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 4628/2001, que cria amparo legal para o PET.

A organização dos grupos PET é feita através de encontros regionais (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul) e do Encontro Nacional dos grupos PET (ENAPET), o qual entrou para a programação oficial da SBPC em 2001 e é o fórum máximo de discussões do Programa PET. Além disso, do ENAPET nasceu a Executiva Nacional denominada CENAPET, composta por tutores e bolsistas e responsável por defender as resoluções tiradas em assembléia geral. Através destes mecanismos os grupos PET vão continuar lutando pelo desenvolvimento e expansão do Programa.

POSSIBILIDADES DO PET PARA A GRADUAÇÃO

Para entender o papel do PET na construção de um Ensino Superior de melhor qualidade será preciso antes pesquisar como se constituiu historicamente a Universidade que conhecemos hoje e em que ela se diferencia de um projeto ideal.

As primeiras faculdades do Brasil foram criadas no final do período colonial, por D. João VI, sendo uma iniciativa do Estado para a sociedade. O projeto era claramente elitista e tinha como objetivo formar profissionais liberais para serem os novos dirigentes do regime. Sendo assim, eram completamente controladas pelo Estado que definia: a criação de instituições, seu objetivo, o currículo, os professores e diretores e sua remuneração. Inicialmente, as principais escolas eram de Direito, Medicina e a Politécnica, que representavam a espinha dorsal do sistema. A pesquisa realizada nas Universidades era marginal às finalidades da própria instituição, e foi abrigada em museus, observatórios e institutos de pesquisa, onde apenas era aceita quando apresentava utilidade prática imediata.

Este panorama é transformado com a revolução da década de 30, onde foi implantado o modelo de universidade humboldtiano que visava à modernização cultural, acompanhando a urbanização e revolução industrial. Nesse sentido, há a busca de uma universidade onde haja a produção de conhecimento e se faça pesquisa, o que foi chamado de "saber desinteressado", por não ter como finalidade a aplicação imediata. Esse modelo foi implantado pelos intelectuais da época que atuavam através de interlocutores ou representantes da burocracia.

Desta forma, foram criadas instituições maiores que integravam as antigas escolas, como é o caso da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que se constituiu como uma mini-universidade. Embora esta tivesse como finalidade inicial ser um centro de altos estudos, acabou adquirindo a função profissionalizante de formação de professores, uma vez que as demandas sociais prestigiavam o antigo modelo. Além disso, embora houvesse um ideal de universidade que aliasse o ensino e a pesquisa, este só se concretizou de modo parcial em algumas regiões, uma vez que a pesquisa ainda era uma necessidade difusa da sociedade, dependendo fortemente do governo. Na USP, por exemplo, a pesquisa se desenvolveu por ser vista pelas classes dominantes como um alicerce do planejamento tecnológico e social. Isso implicou no estabelecimento de um poder acadêmico que garantia a autonomia da universidade frente às pressões imediatistas e ingerências políticas do Estado. Por outro lado, nas regiões mais tradicionais do país o ensino superior ainda era controlado de acordo com os interesses das oligarquias locais, de forma que a pesquisa não pôde ser desenvolvida.

Nos trinta anos seguintes houve uma mudança social radical, e o crescimento dos setores médios próprios de uma formação social, industrial e urbana criou uma demanda de ampliação do ensino público de grau médio, criando uma nova clientela para o ensino superior. Além disso, o crescimento das burocracias estatais e empresas capitalistas abriu um novo mercado de trabalho, onde o diploma de ensino superior constituía uma garantia de acesso a esse mercado. Desta forma, a demanda por ensino impulsionou uma nova reforma da universidade, que começou por iniciativa da sociedade.

A reforma foi profunda: reafirmou a indissociabilidade entre ensino e pesquisa, criou os departamentos, estruturou as carreiras, organizou o currículo em básico e profissionalizante, decretou a flexibilidade curricular com o sistema de créditos e o regime semestral, ampliou a participação estudantil e docente nos colegiados superiores, entre outros. Porém, na prática percebeu-se que após quase 20 anos não houve uma melhora no ensino, pois a flexibilidade curricular era apenas formal, a fragmentação da universidade aumentou e a pesquisa se manteve limitada a poucos centros e desligada do ensino.

Isso se deu principalmente pelo fato da reforma incluir medidas de democratização interna (maior participação de docentes e discentes na gestão da instituição) e de fortalecimento dos valores acadêmicos, o que dificultava o controle ideológico e político por parte do regime autoritário. Logo, montaram-se mecanismos paralelos de controle que constituíam um elemento corruptor e perturbador de todo o sistema como, por exemplo, a repressão policial, a centralização burocrática crescente e a manipulação na escolha dos dirigentes. Além disso, a ampliação de vagas no ensino público e a expansão do setor privado ocorreram sem preocupação com a qualificação dos docentes e completamente governada pelas leis do mercado (condicionada a elementos imediatos da demanda social).

No final da década de 70 houve uma nova reforma, que se concretizou através da associação de docentes. O movimento criticava a deterioração do ensino e da pesquisa além de denunciar a ilegitimidade dos instrumentos políticos, lutando por uma democratização da universidade. Porém, o movimento adquiriu uma conotação política mais ampla de contestação ao regime, atraindo diversos setores da esquerda, o que fez com que a discussão propriamente acadêmica ficasse em segundo plano.

É neste contexto que surge o Programa de Educação Tutorial, em 1979. O projeto era, inicialmente, elitista, uma vez que seu objetivo era "elevar a qualificação de grupos selecionados de alunos da graduação, mediante um intenso e avançado treinamento", ou seja, formar um pequeno grupo de alunos qualificados para o mercado de trabalho e para a carreira acadêmica. O nome "Programa Especial de Treinamento", como era chamado até então, reflete essa ideologia. As universidades de um modo geral enfrentavam problemas para atingir adequadamente a todos os alunos devido a restrições financeiras, e sua expansão não estava sendo acompanhada pela melhoria da qualidade. Além disso, muitos estudantes apresentavam embasamento insuficiente oriundo de um Ensino Médio heterogêneo. Paralelamente à massificação das turmas da graduação pensou-se em destacar pequenos grupos de acordo com seus antecedentes, concentrando esforços de orientação, acompanhamento acadêmico e estímulos financeiros de modo a permitir dedicação exclusiva e integral dos alunos para uma formação de alta qualidade.

Desta forma, o Programa era destinado a grupos de alunos que demonstrassem potencial, habilidades e principalmente um grande interesse no curso de graduação das IES em que estudavam. O Programa buscava propiciar a esses estudantes, sob a orientação de um tutor, caminhos que possibilitassem a melhoria da graduação, complementando a formação acadêmica.

O PET foi se desenvolvendo ao longo dos anos, com avanços e retrocessos qualitativos e quantitativos, e as diversas ameaças de extinção do Programa possibilitaram uma maior mobilização entre os grupos. Desta forma, percebeu-se a importância do PET enquanto possibilidade de transformação do ensino superior no Brasil. Viu-se também que, para isso, era necessário o aluno bolsista ser um agente multiplicador, disseminando novas idéias e práticas entre os outros alunos do curso, modificando e ampliando a perspectiva educacional do coletivo, uma vez que essa interação possibilitaria um mútuo aperfeiçoamento, desenvolvendo o projeto pedagógico do curso.

O Programa funciona com um método tutorial, onde o tutor fica responsável por estimular e auxiliar a aprendizagem ativa de seus membros, através de vivências, reflexões e discussões. O método foge da passividade dos alunos às vezes encontrada em salas de aula, onde o professor tem a função de transmitir o conhecimento acabado e o aluno de assimilá-lo; há um espaço para a construção de novos saberes e o desenvolvimento do domínio dos processos e métodos gerais e específicos de investigação necessários para tal produção, através da realização de pesquisas epistemológicas, produção de textos e artigos e palestras com professores – visitantes. Dessa forma, o Programa permite o desenvolvimento do pensamento crítico e a habilidade de resolução de problemas.

O PET também fornece condições para a realização de atividades extracurriculares, procurando ampliar e aprofundar os objetivos da graduação através de compromissos epistemológicos, pedagógicos, éticos e sociais. As atividades dão a oportunidade de vivenciar experiências não presentes em estruturas curriculares convencionais, visando uma formação acadêmica global e colaborando para uma integração no mercado profissional e uma melhor qualificação como indivíduo e membro da sociedade. Desta forma, embora possa haver um currículo comum aos mesmos cursos no Brasil inteiro, a vivência com diferentes realidades e demandas sociais particulares de cada região permitem uma flexibilização do currículo.

Além disso, o PET tem como base a tríade ensino - pesquisa - extensão, se diferenciando dos programas de Iniciação Científica, por exemplo, que trabalham apenas com pesquisa. O objetivo é que os alunos atuem em diferentes setores da sociedade.

As atividades de ensino dizem respeito não só ao aprofundamento dos alunos em determinados conhecimentos, através de grupos de estudos ou organização de palestras, como também de aulas ministradas pelos próprios alunos dentro ou fora da Universidade. Isso possibilita o desenvolvimento de novas práticas e experiências pedagógicas no âmbito do curso (permitindo uma formação diversificada) e um contato com a sociedade, quebrando o isolamento em que o saber científico se mantém.

A pesquisa estabelece uma conexão com o ensino e não fica necessariamente ligada a determinadas demandas sociais, podendo se configurar como um "saber desinteressado". Além disso, pelo fato dos grupos PET não se restringirem a uma determinada área de conhecimento, há a possibilidade de realização de pesquisas que abarquem áreas diferentes, promovendo uma ligação entre as áreas e diminuindo a fragmentação do conhecimento.

As atividades de extensão viabilizam a transformação social a partir do conhecimento e a produção de conhecimento através da prática, constituindo um movimento dialético, além de possibilitar com que os alunos exercitem a cidadania e reflexão sobre questões relevantes à nossa sociedade, como a inclusão social. Desta forma, o aluno adquire um caráter crítico e atuante, contribuindo para a comunidade científica com as suas pesquisas, colaborando com a sociedade por suas atividades de extensão e desenvolvendo o conhecimento acadêmico através do ensino. Embora se faça essa divisão por motivos didáticos, ensino, pesquisa e extensão aparecem na prática como atividades indissociáveis que modificam os diferentes contextos sociais.

O Programa tem também como objetivos: interar o bolsista com os corpos docente e discente da instituição, inclusive em nível de pós-graduação, participando em atividades características desse último; estimular a consciência do papel do aluno frente à sociedade; desenvolver ações coletivas e a capacidade de trabalhar em grupo; envolver os alunos em tarefas e atividades que propiciem o aprender fazendo e refletindo sobre; discutir temas éticos, sócio-políticos, científicos e culturais relevantes para o país e/ou para o exercício profissional e para a construção da cidadania.

Desta forma, o PET tem mostrado ser uma alternativa que possibilita a transformação acadêmica, científica e social.


NA PUC DE SÃO PAULO

O grupo PET de Psicologia da PUC-SP foi implementado em agosto de 1995 sob tutoria da Prof. Dra. Edna M. S. Peters Kahhale passando em 2001 aos cuidados da Prof. Dra. Rosa Maria Tosta. Tem como temática central “A construção da subjetividade”, que é enfocada a partir das diversas concepções de mundo e homem. A partir deste tema o grupo procurou desenvolver trabalhos epistemológicos, metodológicos e práticos.

Considerando os objetivos do Programa PET e a realidade da PUC-SP, o grupo tem por meta uma maior integração entre as atividades de pesquisa, ensino e extensão que possibilitem uma transformação da realidade acadêmica e social. Sendo o único grupo PET da Universidade, ele mantem relações com os outros grupos através dos encontros regionais (SUDESTE – PET) e nacionais (ENAPET), além dos contatos via Internet por um grupo de e-mail.

Buscamos manter uma articulação com a nossa universidade através da participação em debates envolvendo temas sobre o Ensino Superior, como a Reforma Universitária, além de organizarmos um grupo de discussão sobre Diretrizes Curriculares. Também participamos de Órgãos Deliberativos da Faculdade, como o Conselho Departamental, onde ficamos a par das discussões mais relevantes da Faculdade de Psicologia. Essas atividades proporcionam uma interação maior com o corpo docente e possibilitam uma transformação na estrutura do curso e da Universidade.

Buscamos também realizar atividades que incluam alunos de outros cursos, como a Oficina de Pôster, que é resultado de uma parceria entre o PET e o CEPE (Conselho de Ensino e Pesquisa). Ela é realizada a cada semestre, com o objetivo de orientar os alunos de diversas faculdades na elaboração de pôsteres para apresentação de trabalhos de Iniciação Científica.

Sendo a Psicologia uma ciência ampla que possui um diversificado campo de atuação nas mais diversas áreas do conhecimento, o Grupo PET busca realizar atividades que possam contribuir para uma formação integral, evitando a fragmentação e especialização precoce. Porém, visando uma racionalização dos trabalhos, o grupo muitas vezes decide dedicar-se a um tema ou uma área, concentrando, o quanto possível, as atividades de ensino, pesquisa e extensão, como é o caso da escolha por priorizar ass áreas educação e saúde para o triênio 2004/2006.

Outra forma de aprofundamento caracterizada como uma atividade de ensino é a monitoria nas disciplinas do curso. Muitos bolsistas do PET preocupam-se em ser monitores nas diversas disciplinas, atividade que possibilita aos alunos assistidos uma atenção mais próxima e direta às suas dúvidas e dificuldades e, para os monitores, um aprofundamento teórico e aproximação com a realidade profissional do professor.

O grupo também realiza atividades mais abrangentes que enriquecem a formação como um todo, através da organização de debates, palestras e mostras de filmes.

Buscamos uma articulação com outras organizações estudantis, como o Centro Acadêmico, a Atlética e a Psico Júnior. A parceria entre estas organizações e o PET resultou, por exemplo, na Semana de Psicologia da PUC-SP. Este evento ocorre uma vez ao ano na Universidade, onde profissionais relacionados à Psicologia atuantes em diversas áreas e instituições são convidados a ministrar palestras e cursos. Isso possibilita o contato dos estudantes com um conhecimento que muitas vezes não está contemplado na formação acadêmica, além de atrair alunos de outros cursos que se interessam pelos temas. Outro resultado da parceria entre as organizações estudantis é a Semana dos Calouros, em que são realizadas atividades para os graduandos recém chegados, permitindo um maior acolhimento e troca.

Além disso, realizamos atividades em parceria com a Associação Comunitária Monte Azul desde o segundo semestre de 2004, visando uma transformação social mais direta. Inicialmente fizemos um trabalho de reconhecimento institucional e levantamento de demandas, que culminou na realização de Oficinas de Sexualidade e AIDS no dia mundial da luta contra a AIDS (1º de dezembro), as quais foram realizadas em dois grupos diferentes de adolescentes moradores da região, obtendo uma excelente avaliação dos mesmos, da Associação e do próprio grupo PET.

No ano de 2005 mantivemos a parceria, realizando outras intervenções com o objetivo de dar continuidade ao projeto iniciado no ano anterior. Foram realizadas, inicialmente, duas oficinas destinadas ao levantamento e reflexão de questões sobre o mundo jovem, nas quais os principais temas abordados foram: aparência, relacionamento, violência, escolha e futuro. Posteriormente, uma terceira oficina foi feita com o objetivo de refletir sobre o processo de escolha, que atravessa todas as questões anteriormente levantadas. Para o segundo semestre, foram planejadas três oficinas para o tratamento de questões mais pontuais já apontadas nas oficinas anteriores.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

Considerando o panorama traçado a respeito das mudanças propostas para o Ensino Superior no Brasil, o Programa de Educação Tutorial se apresenta como uma alternativa possível para concretização de ideais ligados às Universidades.

Buscamos uma instituição onde a produção científica e cultural contribua para o desenvolvimento da tecnologia, visando à diminuição das desigualdades e problemas sociais. Queremos um ensino diversificado, associado à pesquisa, de alta qualidade, adequado às necessidades econômicas e sociais do país, que contribua para a formação da pessoa e do cidadão e que seja acessível a todas as classes sociais.

O método tutorial possibilita uma ligação entre ensino, pesquisa e extensão, devido às atividades extracurriculares que incentivam a aprendizagem através prática e transformação social. Como exemplo, temos o projeto na Associação Comunitária Monte Azul, em que foram desenvolvidos grupos de estudo a partir do trabalho com os jovens da comunidade, experiência que abriu portas para a realização de pesquisas para aprofundamento de temas observados durante as oficinas.

Essa atividade proporcionou tanto um enriquecimento da comunidade científica como uma transformação social, o que foi possível apenas pela troca de saberes. Assim, o conhecimento acadêmico deixa de assumir um caráter de poder, pertencendo apenas aos intelectuais e se mantendo isolado do resto da sociedade e passa a ser disseminado através das atividades práticas.

Como o PET não estabelece previamente determinadas vertentes do conhecimento para estudo e por ser um grupo heterogêneo (com alunos de diversos anos e com interesses diferentes), o estudante consegue obter uma formação ampla e diversificada, através da experiência nas diversas áreas. Além disso, por ser um Programa implantado em cursos diferentes, o PET possibilita a realização de atividades multidisciplinares, diminuindo a fragmentação do conhecimento.

Por fim, embora o Programa não possibilite diretamente o ingresso de alunos de diferentes classes sociais na Universidade, o incentivo às discussões sobre Reforma Universitária e Diretrizes Curriculares, além da participação nos órgãos deliberativos da Universidade, leva à uma reflexão a respeito do Ensino Superior no Brasil, propiciando a transformação da realidade acadêmica.

Percebendo o sucesso do Programa a partir das mudanças ocorridas nas Instituições, nosso objetivo é criar condições para a propagação dos grupos PET pelo país, de forma a democratizar ainda mais o acesso dos estudantes das IES ao programa.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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NEVES, Marcos César Danhoni et al. Reinventando a graduação – Os grupos do Programa de Educação Tutorial (PET) da UEM. 1. ed. Maringá; Massoni, 2005.

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<www.mec.gov.br/sesu>. Acesso em 1 de agosto. 2005.


<www.ufra.edu.br/pet/agro_pet.htm>. Acesso em 1 de agosto. 2005.