Aprendizagem e Criatividade no Contexto Universitário: Um estudo de caso1

Arte, creatividad y recreación


Ana Luiza Neiva Amaral 2
Albertina Mitjáns Martínez3

Universidade de Brasília
(Brasil)


 

RESUMO

Os elementos subjetivos que participam da expressão criativa do sujeito se constituem no decorrer da sua história de vida a partir da sua participação em diferentes contextos sociais. O reconhecimento desse fato implica em considerar a instituição educativa como um dos espaços fundamentais para o desenvolvimento da criatividade dos alunos. Porém, o desconhecimento por parte dos educadores sobre como se dá esse processo, dificulta o delineamento de estratégias que possam contribuir para desenvolver nos alunos os recursos pessoais que lhes permitam uma ação criativa. O presente artigo constitui um recorte de um trabalho de mestrado que tem como objetivo geral compreender a relação entre o sentido da aprendizagem e a expressão da criatividade no processo de aprendizagem. Será apresentado o estudo de um caso de um aluno universitário criativo no qual serão mostrados os elementos subjetivos que favorecem a expressão da sua criatividade na aprendizagem.

Palavras-Chave: Aprendizagem – Subjetividade – Criatividade – Ensino Superior

 

RESUMEN

Los elementos subjetivos que participan de la expresión creativa del sujeto se constituyen en el transcurso de su historia de vida a partir de su participación en diferentes contextos sociales. El reconocimiento de este hecho implica considerar la institución educativa como uno de los espacios fundamentales para el desarrollo de la creatividad de los alumnos. Sin embargo, el desconocimiento por parte de los educadores de cómo se da ese proceso, dificulta el delineamiento de estrategias que puedan contribuir a desenvolver en los alumnos los recursos personales que les permitan una acción creativa. El presente artículo constituye un recorte de un trabajo de Maestría que tiene como objetivo general comprender la relación entre el sentido del aprendizaje y la expresión de la creatividad en el proceso de aprender. Será presentado un estudio de caso de un aluno universitario creativo en el cual serán mostrados los elementos subjetivos que favorecen la expresión de su creatividad en el aprendizaje.

Palabras-Clave: Aprendizaje – Subjetividad – Creatividad – Enseñanza Superior

1 Artigo elaborado a partir da apresentação de um trabalho apresentado no I Seminário Interinstitucional de Pós-Graduação Strictu Sensu em Educação (Brasil - Out/2006)

2 Mestranda do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília - Brasil amaral.analu@gmail.com

3 Ph.D. Profª. da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília - Brasil amitjans@terra.com.br

Introdução

O homem, desde o seu nascimento, está imerso em um contínuo intercâmbio de informação e afeto com o contexto no qual está inserido. Uma das características mais marcantes do século XXI é a quantidade de informação que circula e a velocidade com que ela chega às pessoas. Não obstante, o que contribui de forma diferenciada para o desenvolvimento do sujeito não é a quantidade de informação que ele recebe, mas o que ele faz com essas informações. Essa constatação coloca em relevo a importância da expressão criativa na aprendizagem no sentido de favorecer uma atitude transformadora no processo de apropriação das informações. A ausência de criatividade deságua no meio acadêmico que revela universitários que não conseguem visualizar respostas criativas e soluções inusitadas, optando quase que invariavelmente pelo já conhecido. Essa forma de se manifestar reflete a trajetória do sujeito em uma cultura escolar que mantém o estudante em uma posição passiva no processo de construção do conhecimento. Parece que a criatividade tem dificuldade de se manifestar em função do modelo passivo-reprodutivo que ainda vigora largamente na esfera educativa. Uma revisão sobre as pesquisas na área da criatividade relacionadas ao contexto educacional revela que a maior parte dos estudos focaliza especialmente o ensino fundamental. As pesquisas realizadas com estudantes e professores universitários têm um número reduzido, apesar da relevância dessa etapa da escolarização no sentido de propiciar condições para a conscientização e desenvolvimento das habilidades criativas durante a formação profissional, com vistas a preparar o aluno para fazer uso da sua criatividade. Nessa perspectiva, a compreensão dos elementos subjetivos favorecedores da expressão criativa na aprendizagem poderá contribuir para aprimorar a compreensão da relação dinâmica e dialética entre criar e aprender e, conseqüentemente, para o delineamento de estratégias educativas que favoreçam a aprendizagem criativa no Ensino Superior.


Referencial teórico

Segundo González Rey (2001, 2003b, 2003c, 2004) a aprendizagem não é um ato instrumental, mas um processo subjetivo essencialmente interativo. As potencialidades individuais comprometidas no processo de aprendizagem entram em jogo dentro dos diferentes sistemas de relação que se estabelecem na instituição educativa. Nesse sentido, a aprendizagem se efetiva com a configuração permanente de sentidos e significados que correspondem a processos de subjetivação acionados a partir da emoção do sujeito comprometido nesse processo. Sendo assim, o que transforma o processo educativo em um processo efetivo é a possibilidade de implicação do aluno naquilo que a instituição educativa busca oferecer. Se essa via real de produção de sentido subjetivo não se constitui, a aprendizagem cai num vazio, pois se converte em uma atividade formal. Para o autor o sentido subjetivo da aprendizagem não se refere a um sentido ideal de um sujeito epistêmico universal. A constituição de sentido subjetivo acontece em sujeitos concretos, enraizados numa cultura, em determinadas relações sociais e em certas situações. O sentido subjetivo do aprender é o resultado complexo das emoções, dos processos simbólicos e dos significados que emergem no próprio curso da aprendizagem que reflete uma aproximação particular com a realidade. O reconhecimento da aprendizagem como processo de sentido promove repercussões em nível didático ao revelar uma compreensão distinta do sujeito aprendente, que não renuncia ao seu caráter ativo e subjetivo e, por isso, não pode se limitar a estratégias reprodutivas e passivas frente aos desafios que a instituição educativa lhe impõe.

Outra vertente teórica que sustenta o desenvolvimento desse estudo é a perspectiva histórico-cultural da criatividade proposta por Mitjáns Martínez (1997, 2004). Para a autora a criatividade é um processo da subjetividade humana que se constitui a partir de contextos culturais de inter-relações. Ela defende a tese do caráter personológico da criatividade, isto é, “a consideração de que a criatividade é possível, entre outros fatores, pela existência no sujeito de um conjunto de recursos de natureza afetivo-cognitiva que se configuram possibilitando a regulação de seu comportamento criativo” (Mitjáns Martínez, 1995, p.18). Para a autora, a criatividade não é explicável unicamente como produto das funções cognitivas. Ela defende a idéia de que para a criatividade se manifestar é necessário a participação de outros aspectos da vida psíquica do sujeito. Nesse sentido ela destaca o papel da personalidade que tem como unidade central a célula afeto-cognição. Isso pressupõe que o ato criativo não aciona processos cognitivos isolados como a memória ou a percepção. É um processo holístico que implica o sujeito como um todo. Mitjáns Martínez reconhece a importância das capacidades cognitivas na expressão criativa, porém ela não incorre no erro de considerá-las como únicas determinantes desse processo. Para a autora a atividade criativa reflete as dimensões afetivas e cognitivas do sujeito em uma unidade indissolúvel.

Mitjáns Martínez (1997) constatou também que na expressão criativa do sujeito não participam necessariamente todos os recursos personológicos do sujeito. A autora adotou a categoria configuração criativapara designar “todos aqueles elementos que adquirem um valor dinâmico, motivacional e/ou instrumental para a expressão criativa do sujeito” (Mitjáns Martínez, 1997, p.113). Em outras palavras, a configuração criativa representa um subconjunto de elementos da personalidade que são mobilizados no ato criativo. Porém, nas diversas investigações desenvolvidas com sujeitos criativos, a autora identificou que apesar de ser possível reconhecer alguns elementos subjetivos comuns aos sujeitos criativos, é impossível encontrar uma configuração criativa única que caracterize a todos de forma generalizada. Esse fato coloca em relevo o caráter singular e diferenciado dos recursos personológicos envolvidos na criatividade.

Ao colocar a unidade afeto-cognição no centro do processo criativo, a autora põe em relevo o papel da motivação para a expressão criativa, o que conduz a uma importante constatação: a criatividade não se expressa de forma generalizada em todas as atividades do sujeito. A expressão criativa resulta da implicação afetiva do sujeito em uma determinada atividade para a qual ele está motivado. O envolvimento com a tarefa possibilita a otimização das capacidades do sujeito favorecendo o ato criativo. Assim sendo, a constituição de sentido subjetivo no ato de aprender é condição sine qua non para uma expressão criativa na aprendizagem.



Metodologia

A metodologia utilizada nessa pesquisa teve como suporte a Epistemologia Qualitativa (González Rey, 2003a) que oferece nos seus pressupostos, elementos fundamentais para viabilizar o estudo dos fenômenos humanos complexos. Optamos pelo estudo de caso utilizando instrumentos abertos e semi-abertos, tais como: entrevista, técnica de completar frases, redação, observação e análise documental. Na etapa de seleção dos sujeitos, cinco alunos universitários criativos dos cursos de Direito, Medicina, Arquitetura, Psicologia e Física foram selecionados.



O caso estudado

No presente trabalho, será apresentado o caso de Pedro1 evidenciando os elementos subjetivos da sua configuração criativa que favorecem a expressão da criatividade na aprendizagem. No momento da participação na pesquisa, Pedro cursava o último semestre do curso de Direito, no qual teve uma trajetória acadêmica bem sucedida. Reconhecemos 9 elementos subjetivos na configuração criativa de Pedro que destacamos a seguir:



a) Alto grau de motivação para a aprendizagem, constituindo esse processo uma tendência orientadora da personalidade.

A tendência orientadora da personalidade integra o conjunto de motivos que orienta o sujeito nas principais direções da sua vida (González Rey e Mitjáns Martínez, 1989). Tendo em vista que a criatividade manifesta-se exatamente nos campos em que se concentram as principais tendências orientadoras do sujeito, podemos designar um papel central desse conjunto de motivos e necessidades na regulação do comportamento criativo. A tendência motivacional de Pedro para a aprendizagem reflete uma busca por situações que favoreçam novas aprendizagens. Ele direciona as suas ações e escolhas com esse propósito e revela envolvimento efetivo quando está diante de uma nova oportunidade para aprender. Observa-se uma forte orientação para a leitura, um interesse geral pela cultura e uma curiosidade por conhecimentos de áreas diversas. Algumas falas nas entrevistas e alguns trechos de instrumentos escritos trouxeram indicadores do alto grau de motivação de Pedro para a aprendizagem.


b) Capacidade reflexiva sobre si mesmo que reflete uma autovaloração adequada.

Para Mitjáns Martínez (1997, p.68) “a autovaloração se expressa na visão que o sujeito tem de si mesmo, integrada por um conjunto de qualidades e características que estão emocionalmente comprometidas com as principais necessidades e motivos da personalidade”. Ser criativo na aprendizagem implica, entre outras coisas, personalizar as informações que recebe, estabelecer uma relação positiva com o erro, manifestar pensamentos e idéias próprias. Atitudes como essas requerem certo grau de confiança em si mesmo, segurança e auto-suficiência. Essa constatação aponta para o importante papel que a autovaloração exerce na regulação do comportamento criativo na aprendizagem. Pedro revela um alto nível de reflexão sobre si mesmo e uma autovaloração adequada que atua na regulação do seu comportamento. Na observação realizada durante a defesa de sua monografia final de curso foi possível perceber como a sua autovaloração positiva possibilitou a ele um posicionamento seguro e confiante no transcorrer de toda a sua apresentação.


c) Capacidade para personalizar a informação recebida com base em reflexões e elaborações altamente individualizadas.

A aprendizagem refere-se a uma construção própria, a uma produção singular que se constitui mediante um processo de personalização da informação recebida, que solicita uma implicação efetiva do sujeito. A personalização do conhecimento assume um papel central na aprendizagem de Pedro e aparece nas observações, entrevistas e instrumentos escritos como um grande diferencial. Um conjunto de elementos favoreceu a construção da hipótese de que a aprendizagem supõe movimentos de ruptura. Quando o sujeito adere rapidamente às idéias do professor e não consegue sustentar os conflitos e contradições inerentes a qualquer processo de aprendizagem, ele não possibilita a emergência desses momentos de ruptura em relação aos conteúdos ensinados e àqueles já construídos anteriormente. Corre o risco de aceitar passivamente sem introduzir as transformações necessárias para a sua apropriação mantendo em equilíbrio o seu sistema de conhecimentos. Pedro revela que a ruptura e o desequilíbrio são necessários e que ele utiliza o questionamento e a reflexão com esse propósito.


d) Autodeterminação vinculada a uma orientação ativa para a superação.

A autodeterminação é um elemento subjetivo importante para a regulação do comportamento criativo na aprendizagem, visto que aprender significa andar sobre um terreno desconhecido que ainda não se domina totalmente. Durante o processo de aprendizagem o sujeito tem, inevitavelmente, de lidar com limites e erros que impliquem em algum grau de frustração. A autodeterminação favorece que o sujeito não se paralise diante dos obstáculos inerentes ao processo de aprendizagem. A forma como Pedro relaciona-se com o erro na aprendizagem também nos serviu como um indicador interessante da sua capacidade de autodeterminação. Outro ponto relativo à autodeterminação que merece destaque, relaciona-se com a atitude ativa de Pedro sobre aquilo que deseja alcançar. Ele revela persistência e organiza a sua ação com o intuito de realizar os objetivos e propósitos próprios.


e) Flexibilidade para redefinir estratégias de comportamento e pontos de vista.

Ser criativo implica sair da rigidez e conseguir visualizar caminhos alternativos. Nesse sentido, a atitude flexível favorece a criatividade na aprendizagem, visto que no processo de personalização da informação o aluno necessita rever conceitos anteriormente construídos. Além disso, a flexibilidade é um elemento subjetivo que possibilita ao aluno identificar mais de uma resposta possível para um determinado problema. A fixação sobre o que se pensa inibe uma abertura a novos conceitos e dificulta o processo de aprendizagem. A capacidade de Pedro para rever os próprios conceitos também se constituiu como um indicador de como a sua flexibilidade interfere no seu posicionamento como aluno.


f) Independência e autonomia que se expressam na resistência a convenções e na busca de um caminho próprio nas suas realizações.

A aprendizagem criativa apresenta-se como fonte de singularidade e diferenciação ao viabilizar um posicionamento próprio do sujeito aprendente. Nesse sentido, a independência e a autonomia são elementos subjetivos que favorecem a manifestação da criatividade na aprendizagem, pois possibilitam ao sujeito pensar por si mesmo sem limitar-se ao que o professor transmite. O testemunho do professor que orientou Pedro na sua monografia final de curso trouxe indicadores importantes para a construção desse tópico. Ele colocou em relevo o posicionamento autônomo e independente de Pedro na construção do seu trabalho. Outro ponto relativo à autonomia de Pedro refere-se a sua resistência a convencionalismos e a sua postura reflexiva sobre regras e restrições.


g) Capacidade inventiva que reflete uma atração pelo mundo imaginário e uma intencionalidade na proposição de novas idéias.

Ser criativo envolve a possibilidade de ir além daquilo que já existe, do conhecido. Para expressar-se criativamente o sujeito não pode ficar limitado àquilo que a realidade lhe oferece. Ele precisa transcender o que já está posto. Esse movimento de transcendência é favorecido quando o sujeito mergulha no seu mundo imaginário e se permite “viajar” nas próprias idéias e imagens. Alguns depoimentos de Pedro durantes as entrevistas trouxeram indicadores de que a sua capacidade inventiva é um elemento subjetivo que se desenvolve desde a sua infância. Foi possível perceber também que a criação aparece de forma conscientizada. Ou seja, existe uma intencionalidade que orienta a sua ação para a criação.


h) Clara orientação para o novo que expressa uma busca consciente por novas experiências.

A aprendizagem inscreve-se a partir da curiosidade e da capacidade de surpreender-se diante do novo. Limitar-se ao conhecido impõe um freio para novas aprendizagens e mantém o sujeito estagnado no seu processo de desenvolvimento. Pedro revela uma atração pelo novo que reflete uma busca intencional para a mudança. A busca pelo novo possibilita que Pedro não converta a própria aprendizagem em um processo de repetição. Ele expressa que a aprendizagem é um processo que vai muito além da cópia e que os trabalhos e atividades não podem estar a serviço do professor, mas precisam atender as reais necessidades do aluno.


i) Presença de importantes concepções favorecedoras da sua aprendizagem, entre elas a consideração da diferença de pensamento como algo saudável.

A aprendizagem se constrói em um espaço relacional. Isso supõe que o sujeito constitui-se aprendente em um vínculo com o(s) outro(s). Vínculo que longe de ser especular, precisa garantir a diferenciação. Ou seja, o aluno não deve se revelar a partir da imagem do professor, mas garantir uma imagem própria. O aluno criativo busca essa diferenciação ao considerar a diferença de pensamento como algo saudável. Para Pedro, o espaço de troca que ele estabelece com o professor e com os colegas é fundamental para a sua aprendizagem. O outro possibilita o contato com o novo, com o desconhecido, com a diferença de pensamento para a qual ele atribui um valor positivo. É a partir dessa relação dialética entre identidade e alteridade que ele se reconhece aprendente.


Conclusão

A evidência marcante desses elementos subjetivos foi reveladora da importância que ocupam para a expressão da criatividade na aprendizagem do aluno pesquisado. Nesse sentido, Mitjáns Martínez (2002) defende que desenvolver a criatividade do aluno supõe incentivar sua expressão criativa concreta e, paralelamente, estimular o desenvolvimento dos elementos subjetivos que contribuem para fazê-la possível. Nosso estudo vem corroborar com esta asserção ao colocar em evidência a dimensão subjetiva dos processos criativos na aprendizagem.

A aprendizagem ao se constituir como um sentido subjetivo para o aluno criativo, assume uma importância nuclear em sua vida. Isso implica num grau de motivação e empreendimento de esforços na direção de novas aprendizagens. O sentido subjetivo como produção simbólica e emocional constitui um elemento essencial para a manifestação da criatividade, visto que a criatividade é um processo de base motivacional que só acontece mediante uma implicação efetiva do sujeito.

Outro ponto fundamental que merece destaque é a relação entre a postura ativa do aluno criativo na sua condição de sujeito e a sua expressão criativa na aprendizagem. A constituição de sentido subjetivo sobre a aprendizagem favorece a expressão do sujeito psicológico que se constitui como a dimensão interativa e atuante da subjetividade individual, sem a qual a criatividade não pode manifestar-se. É possível perceber como o aluno criativo busca um movimento próprio na aprendizagem ao se recusar a converter o seu processo de aprendizagem em um processo de identificação com a figura do professor. Ele marca o seu lugar de aluno ao incluir a sua singularidade. Ele impõe resistência à repetição vazia e se sente desafiado na sua capacidade criativa a ir além do que o professor transmite. Ele expulsa o mandato da cópia e autoriza-se a incluir o que pensa. Ou seja, a subjetividade perpassa a aprendizagem. Isso significa dizer que todos não aprendem igualmente. A constituição de sentido subjetivo na aprendizagem expressa a singularidade do sujeito que reflete a leitura própria que ele faz da realidade.

Ao se converter em sujeito da própria aprendizagem, o aluno criativo não se limita a reproduzir, mas se propõe a criar, a partir dos seus processos de aprendizagem, algo novo e valoroso para o seu processo de desenvolvimento. Nesse sentido podemos afirmar que uma das funções da aprendizagem é personalizar os conteúdos gerais para convertê-los em específicos para o sujeito. Ou seja, transformar algo distante, desconexo e impróprio em algo próprio, único e particular. Essa conversão criativa só é possível mediante a constituição de sentido subjetivo sobre àquilo que se almeja aprender, visto que a aprendizagem é um processo que se configura a partir da unidade afeto-cognição. Assim sendo, a informação personalizada não se constrói unicamente sobre os processos cognitivos, mas, sobretudo, com o suporte dos sentidos e significados constituídos pelo aluno sobre os conteúdos, a situação de ensino-aprendizagem e sobre ele mesmo como aprendente. É nesse terreno subjetivo que a criatividade como processo de produção de novidade e valor pode manifestar-se na aprendizagem.

Porém, não podemos reduzir a função da aprendizagem à construção da informação personalizada. A aprendizagem, entendida como processo de constituição de sentido, possibilita ao aluno não apenas criar novos conhecimentos valorosos para o seu processo de desenvolvimento e aprendizagem, mas possibilita também que ele crie a ele mesmo como aprendente, como sujeito autor da própria aprendizagem. O aluno criativo revela que muito além da construção de um sistema de conhecimentos, a aprendizagem criativa devolve a ele uma auto-imagem que o fortalece e o encoraja a seguir aprendendo. Ou seja, que a aprendizagem é um processo que encontra as suas raízes na vivência de satisfação pela conquista de novos saberes, na experiência de prazer pela autoria dos próprios pensamentos e no reconhecimento de que é capaz de transformar a realidade e a si mesmo. Essa constatação marca o papel central das vivências emocionais experimentadas pelo sujeito no seu processo de aprendizagem.

Concluindo, podemos estabelecer uma relação recursiva entre a constituição de sentido subjetivo na aprendizagem e a expressão criativa nesse processo. Se por um lado, a constituição de sentido subjetivo na aprendizagem alimenta a criatividade ao implicar o aluno nesse processo e ao mobilizar configurações subjetivas facilitadoras da ação criativa, por outro lado, a aprendizagem criativa possibilita ao sujeito vivências emocionais que o fortalecem como aprendente e contribuem para a constituição de sentidos e significados que alimentam uma relação positiva com a aprendizagem. Além disso, podemos observar como a constituição de sentido subjetivo na aprendizagem pode contribuir para a constituição de novos sentidos que transcendem à própria aprendizagem criativa como a autovaloração positiva e a expressão de autonomia e independência. Nesse sentido encontramos evidências de que a expressão criativa na aprendizagem, ao favorecer ao aluno vivências de satisfação e realização pessoal, pode se converter em um espaço de promoção de saúde ao contribuir para o desenvolvimento de um conjunto de elementos subjetivos que possibilitam ao sujeito um posicionamento criativo diante da própria vida.


Referencias Bibliográficas

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1 Nome fictício utilizado para preservar a identidade do aluno.