Subjetividade e Cultura no Amazonas: Desafios à Psicologia no Admirável Mundo Verde

Subjetividades Amazônicas, Identidade Familiar e Gênero

 

Denise Machado Duran Gutierrez

UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS
(Brasil)


RESUMEN

Superando la visión de una psicología reducionista y no critica, que comprende identidad y sexo como elementos esenciales relacionados a la naturaleza humana y que tiene su locus en la interioridad de los individuos y en la biología; las nociones de género, como construcción social e identidad, como entidad dinámica, constituida por las relaciones sociales; y que contribuyen en el sentido de acentuar la importancia de pensar en el hombre en el contexto y en la interrelación dentro de una visión socio-histórica. Al apropiarnos de esos conceptos nuestra reflexión se basa en el sentido de pensar el hombre y la mujer amazonense, buscando la posibilidad de aprender las posibles relaciones entre los elementos presentes en la constitución de su identidad, relaciones de género y elementos que marcan su historia, cultura y formas de organización sociofamiliar. Por eso vamos alimentar nuestra charla presentando y discutiendo algunos resultados de investigaciones recientemente concluidas en una área de invasión en la región urbana de Manaus, dentro del proyecto CNPq-PNOPG.

Palabras Claves: Identidad, Organización Familiar, Relaciones de Género.

 

RESUMO

Superando a visão fragmentada de uma psicologia reducionista e acrítica, que compreende identidade e sexo como elementos essenciais ligados à natureza humana e que tem seu locus na interioridade dos indivíduos e na biologia; as noções de gênero, como construção social, e identidade, como entidade dinâmica, constituída pelas relações sociais; contribuem no sentido de acentuar a importância de se pensar o homem em contexto e em interação dentro de uma visão sócio-histórica. Apropriando-se desses conceitos, nossa reflexão se volta no sentido de pensar o homem e a mulher amazonense buscando apreender as possíveis relações entre elementos presentes na constituição de sua identidade, relações de gênero e elementos que marcam sua história, cultura e formas de organização sócio-familiar. Para isso iremos alimentar nossa fala apresentando e discutindo alguns resultados de pesquisa recentemente concluída em uma área de invasão na região urbana de Manaus, dentro do projeto CNPq – PNOPG

Palavras-Chaves: Relações de Gênero, Identidade, Organização Familiar.

 

ABSTRACT

Surpassing the fragmented view of a psychology that reduces things and is not critical, that understands identity and gender as essential elements connected to human nature and that has its locus in the inner part of the individuals and in biology; the notions of gender, as social construction, and identity, as dynamic entity, consisting of social relations contribute to increase the importance of analyzing man in context and in interaction in a social-historical view. Assuming these concepts, our reflection focus on thinking of the amazonense man and woman looking for apprehending the possible relations among existing elements in the constitution of his/her identity, gender relations and elements that mark his/her history, culture and forms of social-familial organization. In order to accomplish this we will enrich our speech by presenting and discussing some research results concluded recently in an area of invasion in the urban region of Manaus, inside the project CNPq – PNOPG

Key-words: Gender Relations, Identity, Familial Organization.

 

INTRODUÇÃO

O trabalho com famílias de classes populares sempre foi e continua sendo um desafio para o pesquisador. O enfrentamento das situações concretas de pobreza e sofrimento humano é algo que não se pode fazer sem dor e sem se ser impelido por um forte sentimento de compromisso e envolvimento. De outro lado, a entrada em contato com um grupo que constitui uma unidade própria da qual estamos excluídos, com valores, linguagem e costumes próprios, nos remete a questionamentos a respeito de quem somos nós e o que estamos fazendo afinal de contas...

A generosidade das pessoas da comunidade em nos acolher, falar conosco, mostrarem-se, é de fato surpreendente. Traz consigo, sem dúvida um pedido de ajuda, um clamor assistencial ao qual não pudemos responder plenamente, uma vez que pretendíamos investigar a realidade de vida dessas pessoas e ao mesmo tempo intervir propiciando a organização grupal que traria, segundo pensávamos, as desejadas mudanças.

Os resultados que passaremos a apresentar e discutir derivam de pesquisa realizada em uma área de invasão na zona urbana de Manaus no período de 2002 a 2004. Estivemos ali presentes com um grupo de pesquisadores e estudantes provenientes de várias instituições parceiras (UFAM,ULBRA, INPA, FIO CRUZ) ligados ao projeto “Saúde Integral da Família em Situação de Risco Sócio-Ambiental” pertencente ao PNOPG/CNPq. Nos interessava realizar um diagnóstico bastante amplo verificando as condições de vida da/na comunidade, suas relações de vizinhança, relações familiares, relações com o meio ambiente e sociais amplas. Paralelamente procurávamos desenvolver ações aos moldes de pesquisa-ação, conforme proposto por Thiollent (1992), no sentido de construir soluções para os problemas com a comunidade e avaliar o processo posteriormente, descrevendo-o e repensando para a construção de novos objetos.

O enfoque do projeto não traz uma definição restrita de família como família nuclear clássica, mas procurou abordar as diferentes formas e configurações assumidas pela mesma, tomadas a partir do discurso das pessoas, compreendendo-a como espaço social privilegiado onde as condições de saúde integral podem ou não ser desenvolvidas. Como também identificado por Takashima (1994), é importante compreender as relações familiares dentro do contexto social em que elas se dão, integrando em nossa análise as condições sociais de pobreza que se constituem no campo dentro do qual as produções simbólicas são construídas. Pudemos levantar dados referentes a formas de relações familiares, ocupação do espaço, uso do tempo de lazer e distribuição geográfica da família, visão que tem da parentela e sua definição, sociabilidade na família, percepção da rede de comunicação dentro da família. O objetivo é contribuir com elementos para pensarmos as identidades num contexto onde coexistem simultaneamente o tradicional e o novo, elementos do rural e do urbano, do “natural” e do transformado.

A partir de observações participantes conforme proposto por Spradley, 1980, e uso de entrevista semi-estruturada com 74 famílias pudemos coletar dados bastante significativos, parte dos quais passamos a expor.


FAMÍLIA E PARENTELA - AS REDES DE APOIO SOCIAL

Quando indagadas a respeito de, se teriam parentes morando perto de suas moradias, a maior parte dos entrevistados (57%) indicou que sim, contra 43% que mencionou não ter ninguém por perto da família, de modo que se pode perceber uma nítida distribuição geográfica dos elementos de uma família em torno do grupo familiar, mesmo quando se trata de pessoas provenientes de regiões do país bem distantes, como é o nosso caso aqui. Nossos sujeitos são procedentes predominantemente do vasto interior do Estado do Amazonas e Estados nordestinos. Os processos migratórios parecem acontecer através do deslocamento de grupos familiares e não de pessoas isoladas, mesmo quando num primeiro momento possam vir um ou outro membro da família para “sondar o terreno e se estabelecer” e logo em seguida agenciar a vinda de outros.

O gráfico seguinte nos mostra quem são as pessoas que mais predominantemente se distribuem ao redor da família gerando verdadeiras redes de apoio social e relacionamento afetivo pautados na identidade comum dos membros.

Image 

 
A proximidade geográfica da família parece funcionar como uma tentativa de manutenção de vínculos e manutenção da rede de apoio social possível, o que nas comunidades socialmente desassistidas como essa, é de relevância fundamental. Morar perto de parentes pode significar ter com quem contar, concreta ou simbolicamente, ou ao menos, manter seus esquemas de referência no tempo e espaço. Poder localizar outras pessoas que pertencem a você e a quem você também pertence ao nível de sua história de vida e vinculação civil no mundo, pode significar não estar solto e “perdido” num mundo marcado por tantas instabilidades e incertezas. É uma forma de existir e estar no mundo mantendo referenciais. É não estar desenraizado mesmo quando se vem de longe, de outro contexto de vida como migrante, quando já se deixou “sua terra”, mas não completamente, sua parentela.

Vários autores já assinalaram a instabilidade dos vínculos de casamento nas camadas populares. Dentre eles Tânia Salem (1982) trabalhando com mulheres faveladas no Rio de Janeiro destaca a forte insegurança vivida pelas mulheres quanto à permanência do “seu homem” em casa, mesmo em relações que já existem por anos, e que em concomitância a isso a mulher se volta para o estabelecimento de um forte vínculo substitutivo com os filhos, especialmente com o filho mais velho “substituto do pai”. As relações familiares, quer o pai esteja presente ou não, parecem se centrar na figura da mãe com os filhos, pois entre todas, essa relação é a mais permanente e estável. No entanto, em nossa comunidade encontramos a referência aos irmãos, tios e cunhados como aquelas figuras que mais freqüentemente acompanham e se estabelecem nas imediações das novas moradias dessas pessoas, o que parece apontar para um deslocamento na ordem de importância das figuras parentais para as figuras fraternas ou de coloração fraterna, como é o caso dos cunhados. A figura do pai ainda se apresenta com força, mas de forma indireta representada na pessoa dos tios, verdadeiros substitutos simbólicos dos pais, ou na figura dos irmãos (mais velhos?) que funcionariam como centros de gravitação em torno dos quais os demais se organizariam.

A mãe, enquanto elemento aglutinador, ainda continua pelas imediações, ainda que com menor ênfase, e o pai quase que “desaparece do mapa” ratificando seu caráter de ausente, já denunciado em estudos anteriores (SALEM, 1982).

No Brasil, a grande maioria da população infantil é proveniente de famílias de baixa renda cujos pais trabalham fora do lar. Ao sair para o mercado de trabalho, a mulher que não pode pagar uma empregada doméstica, busca outros recursos para prover os cuidados de seus filhos pequenos, como o apoio de parentes, da vizinhança, ou mesmo deixando os filhos mais velhos cuidando dos mais novos durante a sua ausência, (LEITE, 1984; IBAÑEZ-NOVION, 1980 apud FERREIRA & METTEL, 1999) o que também ocorre aqui, e que pôde ser verificado em outro momento.


A FUNÇÃO SOCIAL DO COMER, FALAR E SE MOVER NOS AMBIENTES

As formas de sociabilidade que ocorrem no grupo foram exploradas através da pergunta: O que gostam de fazer juntos? Que gerou a seguinte distribuição de respostas:

 Image

 O “comer juntos” parece ser o ato humano que mais promove um sentido de pertença e comunhão, também tão presente nas várias formas religiosas existentes na atualidade. Na família o “comer juntos” pode marcar ritmos, o almoço de domingo na casa da mãe ou dos irmãos, a peixada com os parentes; e firmar relações e experiências referenciais, o ter para onde ir aos domingos.


COMUNICAÇÃO E AFETOS DENTRO DA FAMÍLIA

A sociabilidade, bem como as direções que seguem os fluxos de comunicação dentro da família nuclear, delimitada aqui pela palavra “casa”, foram investigadas através da pergunta: Aqui na sua casa com quem seus filhos conversam mais?

Image

 

Vê-se claramente um viés de gênero permeando as respostas, uma vez que a mãe é vista como a figura com quem os filhos mais conversam (54%). Como argumenta Louro, buscando delimitar o conceito de gênero, “Não são propriamente as características sexuais, mas é a forma como essas características são representadas ou valorizadas, aquilo que se diz ou se pensa sobre elas que vão constituir efetivamente o que é feminino ou masculino em uma dada sociedade e em um dado momento histórico. Para que se compreenda o lugar e as relações entre homens e mulheres numa sociedade importa observar não exatamente seus sexos, mas sim tudo que se construiu socialmente sobre os sexos” (1997, p.21).

O caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo (Scott apud Louro, 1997, p.21) se faz notar especialmente no conceito de gênero funcionando enquanto ferramenta analítica e política, definindo-se por características fundamentalmente sociais e relacionais e que mais do que revelando uma divisão social de papeis é o constituinte da identidade dos sujeitos, pois, “Compreendemos os sujeitos como tendo identidades plurais, múltiplas; identidades que se transformam, que não são fixas ou permanentes, que podem, até mesmo, ser contraditórias” (Idem, p.24). ainda que essas identidades sejam móveis e plurais atestando de sua fluidez e dinamismo; têm determinações sociais muito claras que procuram recorrentemente cristalizá-las e estabelecê-las em um mesmo lugar.

As oposições feminino / masculino são construídas socialmente e mostram suas contradições na medida em que não há uma unidade possível dentro de cada pólo ou categoria separada, pois há uma multiplicidade de formas de se ser homem ou mulher e expressar feminilidade ou masculinidade. Trata-se, portanto de uma dicotomia artificial a ser superada, mas que, no entanto é de grande pregnância nas falas e concepções das pessoas, que tendem a naturalizar os conteúdos como sendo femininos ou masculinos e que os tomam como referentes moldadores de sua ação.

As diferenças e desigualdades podem ser apreciadas sob vários níveis: o biológico e o social, porém o social é fundante, se entrelaça de tal modo com o biológico tornando-se inseparável do mesmo.

Quando se fala em diferença se raciocina em termos de um padrão estabelecido que denuncia o quanto o que está sendo apreciado dista desse elemento tomado como referência. No caso de nossa sociedade ocidental estamos falando do padrão “indivíduo masculino de raça branca”, tomado como norma estabelecida socialmente.

Várias agências sociais colaboram para criar e firmar diferenças, entre elas primariamente a família como matriz criadora de relações e posteriormente a escola que, como afirma Louro (1997) é entendedora disso.

O processo de ‘fabricação’ dos sujeitos é continuado e geralmente muito sutil, quase imperceptível... O nosso olhar deve se voltar especialmente para as práticas cotidianas em que se envolvem todos os sujeitos”.

São, pois as práticas rotineiras e comuns, os gestos e as palavras banalizados, que precisam se tornar alvos de atenção renovada, de questionamento, e em especial, de desconfiança... Desconfiar do que é tomado como natural” (Idem, p.63).

No entanto a linguagem não apenas expressa relações, poderes, lugares, ela os institui; ela não apenas veicula, mas produz e pretende fixar diferenças” (Idem, p.65).

O ocultamento do feminino na linguagem em expressões globalizantes que identificam o termo homem como gênero e espécie humana ao mesmo tempo aglutina e identifica o humano com o masculino sendo, portanto o feminino aparentemente uma categoria outra, “... um desvio constituído a partir do masculino” (Idem, p.74).

... prestamos pouca atenção à eficiência da normalização cotidiana, continuada, naturalizada” (Idem, p.84) em que a professora é identificada como extensão da função materna afetiva, a mulher é representada como o “não homem”. Ora as representações sociais não só descrevem um fenômeno, mas o constituem; produzem o fenômeno como tal produzindo sentido, constroem o real.

A falta de oportunidades e os problemas sociais certamente desencadeiam conflitos inter-relacionais, no grupo familiar e em toda a comunidade.

A mediação da mãe nos processos de comunicação na família fica evidente pela indicação da mesma como a figura com a qual os filhos mais conversam (54%). Esta figura desempenharia um papel não somente de receptora de toda a carga emocional que circula dentro da família, mas também e talvez, sobretudo, como mediadora de conflitos.

Pode-se talvez entender isso em função da maior liberdade de expressão que, em nossa sociedade, os filhos parecem desfrutar com as mães. Outro argumento adicional pode ser o fato de que a mãe está mais à mão, uma vez que essas mulheres, em sua maioria não trabalham fora se dedicando quase que exclusivamente aos cuidados da casa e filhos (72%). Em termos das relações de gênero que prevalecem na sociedade ocidental vemos também a mulher alinhando-se ao lado dos filhos na família, identificando-se com eles e assumindo posição muitas vezes infantilizada, como se fora um filho a mais, dependente material e afetivamente do marido e com ação restrita ao ambiente “privado e doméstico” da família.

Sendo responsável pelos cuidados e suprimento das necessidades mais elementares (alimentação e proteção de desconfortos) sobre as quais o psiquismo vem a se estruturar é esperado que seja com a mãe que os primeiros vínculos se estabeleçam, o que facilitaria, sem dúvida, sua eleição como a figura central para comunicação. O desempenho da função social da mulher, enquanto provedora primária de afeto, gera todo um conjunto de elementos relacionais e de construção grupal que a apontam como a figura mais receptiva, que melhor conhece os filhos, por interagir mais intensivamente com eles e, por conseqüência, melhor equipada para acolhê-los. O preço que se paga por essa proximidade toda é, em parte a exclusão do pai desse quadro relacional e seu direcionamento para a vida pública, o mundo dos outros homens, o mundo do trabalho, quando este existe, ou o mundo do entretenimento, quando este não existe. “...a maior expectativa é de que a família produza cuidados e proteção dos afetos, construindo identidades e vínculos relacionais de pertencimento, capazes de promover melhor qualidade de vida de seus membros e efetiva inclusão social na comunidade e sociedade em que vivem...”. (CARVALHO, 1995, p). Esse suprimento parece ficar predominantemente a cargo da mulher na família, pois ela efetivamente é a grande responsável pelos processos de vinculação que se desenvolvem e atua intensivamente nos processos de socialização e inclusão dos filhos no mundo social mais extenso.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARVALHO, M.C.B.(1995). “A Família Contemporânea em Debate”. São Paulo: Unicef / Cortez.

FERREIRA, E.A.P. ; METTEL, T.P.L.(1999).Interação entre irmãos em situação de cuidados formais”.Psicologia, Reflexão Crítica. v.12 n.1 Porto Alegre.

LOURO, G., L. (1997). “Gênero, Sexualidade e Educação”. Rio de Janeiro: Vozes.

SALEM, T. (1982). “Mulheres Faveladas: ‘Com a venda nos olhos’ ”. Em Perspectivas Antropológicas da Mulher, vol 1, Rio de Janeiro: Zahar Editores.

SPRADLEY, J. P. (1980). “Participant observation”. New York: Holt, Rinehart and Winston.

TAKASHIMA, G. M. K. (1994). “O desafio da política de atendimento às famílias: da vida às leis - uma questão de postura”. Em S. M. KALOUSTIAN (Org.). Família Brasileira, a Base de Tudo. (77-92). São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNICEF.

THIOLLENT, M. J. M. (1992). “Metodologia da Pesquisa-Ação”. São Paulo: Autores Associados.