O nascimento de uma Associação de Catadores de Material Reciclável – um estudo de caso

 

Márcia Campos Andrade

Universidade Estadual de Londrina - Londrina (Brasil)

 

Resumo

Neste artigo, analisamos as mudanças no mundo do trabalho a partir de um estudo de caso sobre o trabalho coletivo na perspectiva da Economia Solidária. Através do trabalho de campo, tendo como um dos recursos metodológicos as Oficinas de Autogestão, e como referencial teórico a Psicossociologia, a Psicologia Social Comunitária, a Teoria de Grupos Operativos e a Análise Institucional, buscamos analisar e compreender o nascimento de uma Associação constituída por ex-trabalhadores do lixão de uma cidade no interior de Minas Gerais/Brasil. Com o foco de investigação na história de vida de trabalho e no processo grupal vivenciado pelos (as) associados (as), buscamos conhecer o processo de construção do vínculo grupal e do projeto coletivo deste grupo, bem como sua transição da heteronomia para a autonomia no trabalho através do exercício da autogestão.

Palavras-chave: Economia Solidária, trabalho coletivo, autogestão, vínculo grupal, projeto coletivo.

 

Resumen

En este artículo analizamos los cambios en el mundo del trabajo, a partir de un estudio de caso sobre el trabajo colectivo, en la perspectiva de la Economía Solidaria. A través del trabajo de campo, teniendo como uno de los recursos metodológicos los Talleres de Autogestión y como referenciales teóricos a la Psicosociología, a la Psicología Social Comunitaria, a la Teoría de Grupos Operativos y al Análisis Institucional, procuramos analizar e comprender el nacimiento de una Asociación constituida por ex-trabajadores del basurero de una ciudad en el interior del Estado de Minas Gerais, en Brasil. Con el foco de investigación tanto en la historia de la vida de trabajo de los (las) asociados (as) cuanto en el proceso grupal vivenciado por ellos (as), tratamos de conocer el proceso de construcción del vínculo grupal y del proyecto colectivo de ese grupo, bien como su transición de la heteronomía a la autonomía en el trabajo, a través del ejercicio de la autogestión.

Palabras-llave: Economía Solidaria, trabajo colectivo, autogestión, vínculo grupal, proyecto colectivo.

 

Globalização, Trabalho e Economia Solidária.

A atual globalização e internacionalização da economia, em seu caráter excludente, e a reorganização produtiva, decorrente deste processo, provocam mudanças no mundo do trabalho que apontam para o fim do emprego. Seria também o fim do próprio trabalho?

Carvalho (2001), em suas reflexões sobre o sujeito no mundo do trabalho em mutação, aponta para a não extinção do trabalho humano no mundo contemporâneo. Este considera que são os velhos conceitos sobre trabalho que estão desaparecendo e, por isso, faz-se necessário apresentarmos novas pistas de conceituação para as novas formas de organização da produção que estão sendo construídas.

Em relação a estas “novas formas de organização da produção”, Lisboa (2000) apresenta os empreendimentos solidários como aqueles que adotam como princípio o fortalecimento da capacidade produtiva dos empobrecidos, sendo o trabalho sua principal capacidade.

Consideraremos, como Lisboa, a Economia Solidária como o conjunto de práticas de relações econômicas, sociais e culturais que vem sendo construídas no Brasil e no mundo como estratégias de sobrevivência pelas pessoas excluídas da economia de mercado. Os valores culturais desse conjunto de práticas colocam o ser humano como sujeito e finalidade da atividade econômica, em vez da acumulação do capital. É fundada em relações de colaboração solidária, na valorização do trabalho humano, na promoção das necessidades básicas como eixo da atividade econômica e comercial, no reconhecimento da mulher e do feminino, em uma relação de respeito à Natureza e em valores de cooperação e solidariedade.

O presente trabalho, fruto da dissertação de mestrado da autora, tem como foco analisar o nascimento da Associação Patense de Recliclagem – APARE, como um empreendimento econômico solidário, a partir dos aportes teóricos e metodológicos da Psicossociologia (Carvalho, 2000 e Enriquez, 2001), trabalhando os conceitos de autonomia, heteronomia, vínculo grupal e projeto coletivo; da Análise Institucional (Pereira, 2001), trabalhando os conceitos de autoridade e autogestão do grupo; da Teoria de Grupos Operativos (Pichon-Riviére, 1987), trabalhando o conceito de tarefa do grupo; e da Psicologia Social Comunitária (Lane, 2002 e Sawaia, 2002), trabalhando o conceito de processo grupal. Nesta perspectiva, realizamos uma pesquisa qualitativa, utilizando como recursos metodológicos no trabalho de campo a observação participante, entrevistas semi-estruturadas, Oficinas de Autogestão e a análise qualitativa dos dados. 

APARE – da estratégia de sobrevivência à construção de um projeto coletivo.   

A APARE é organizada e constituída por mulheres e homens que trabalhavam no lixão da cidade de Patos de Minas/MG. Nela todos são associados e associadas, não havendo entre eles relações de assalariamento. Todos participam tanto da coleta, triagem e comercialização do material reciclável como da gestão do empreendimento, sendo que as atividades correlatas a estas funções são de natureza intuitiva e prática, não fundamentadas por um saber acadêmico. Consideramos que a forma de organização do trabalho neste tipo de empreendimento seja pautada por princípios da autogestão.

As relações contratuais entre os membros não são referendadas juridicamente, os contratos se dão através de aspectos valorativos baseados na amizade e no companheirismo. Podemos considerar que existe entre eles um trabalho conjunto (cooperativo e associativo) onde todos são responsáveis pelo seu bom desenvolvimento e tentam construir uma relação de ajuda mútua (solidariedade), o que pode ser considerado como uma relação pautada pelos principais valores da Economia Solidária, que são a centralidade no trabalho e a busca da cooperação e da solidariedade como princípios norteadores da atividade produtiva.

A pesquisa de campo foi realizada a partir da primeira semana de trabalho no Galpão da APARE até o sexto mês de “nascimento” da associação, contados da data de sua Assembléia de fundação.

Neste artigo, trataremos sobre as histórias de vida de trabalho dos (as) associados (as) no lixão, sobre o início do trabalho coletivo no galpão da APARE e os primeiros seis meses de convivência cotidiana dos (as) trabalhadores (as).

De forma breve, explicitaremos algo do cotidiano laboral em relação às dimensões conflitivas destes sujeitos no contexto do lixão. Por exemplo, a disputa, as discussões e as brigas constantes pelo material reciclável, assim como a sabotagem constante do trabalho quando alguém colocava fogo no material separado e juntado por outros sem ser possível impedir ou punir os sabotadores por não ter lei instituída no lixão. Tais fatos proporcionavam um clima de tensão, de luta e competição constante pela sobrevivência que dificultava qualquer forma de organização coletiva entre os que lá trabalhavam. Isso favorecia a ocorrência de acidentes e agressões de uns contra os outros utilizando as ferramentas de trabalho (enxadinhas para mover o lixo) como armas. Sobre isso, um dos entrevistados nos relatou:

“Aconteceu de ter um rapaz, o braço dele foi arrancado lá no caminhão prensa (...) ficou sem o braço, não tem o braço mais para trabalhar. Por causa de um pedaço de papel ele perdeu o braço”.

 

Encontramos, nos relatos dos (as) entrevistados (as), que no lixão ocupavam um lugar de quem vive do lixo para garantir o sustento de si e de duas famílias e que na APARE, há a possibilidade de construção de uma identidade coletiva de “catadores (as) de material reciclável”, assumindo uma importante função social na gestão dos resíduos sólidos no município, sendo considerados “parceiros” pelo poder público local e por entidades de assessoria.

Um dos associados, eleito como animador geral da APARE, relatou que havia começado, juntamente com um catador de rua, uma conversa sobre a organização de um grupo para trabalhar junto com coleta, comercialização e reciclagem de material reciclável. Desistiram da idéia quando a Prefeitura propôs colaborar com a organização dos (as) trabalhadores (as) do lixão, porque sem a assessoria que ela propunha, as dificuldades seriam bem maiores. Dessa forma, a associação foi criada apenas por quem trabalhava no lixão, ficando de fora os catadores de rua.

  Sobre o início do trabalho dos (as) catadores (as) no Galpão, este foi marcado por resistências e conflitos interpessoais que pareciam expressar a modalidade relacional construída pelos mesmos em tantos anos de trabalho no lixão: a disputa pelo espaço e a preocupação com a quantidade de material doado pelas empresas parceiras, a questão da renda que deixaram de gerar cotidianamente, a desconfiança mútua, e as disputas de poder. Percebemos, também, a existência do aspecto lúdico (a brincadeira uns com os outros), para além das discussões e brigas, existe o bom humor.

Relataram a mudança na organização do trabalho a partir da associação: a coleta e a separação do material reciclável no lixão era diferente e não se preocupavam com a separação adequada e a comercialização conjunta do material. Além disso, tiveram que sair do individual para o coletivo na execução e organização do trabalho e na tomada de decisões comuns.

No contexto geral, a visão deles (as) sobre a associação se traduzia no desejo de um espaço de união, de trabalho, respeito, conversa, de trabalho junto, todo mundo fazendo o que tem que ser feito sem alguém precisar mandar.   Ao mesmo tempo, afirmam ser necessário alguém que coordene, que direcione, que diga o que fazer, mas apostam no poder instituído do “animador geral”, associado eleito como Presidente da Associação, ou de alguém de fora que saiba mais sobre associação de catadores de material reciclável.

Percebemos aí a questão da heteronomia nas relações de trabalho, por acreditarem que exista alguém que sabe mais ou pode mandar mais e por isso pode comandar os outros que sabem menos ou mandam menos.  Nesse caso, vimos também a relação entre a autonomia – eu mesmo organizar meu jeito de trabalhar com os outros e a heteronomia – as outras pessoas é que vão me dizer o como eu devo trabalhar e o que eu devo fazer, ou seja, a separação entre a diretoria ou assessores (quem sabe e quem pode mandar mais) e os demais associados e associadas (que têm que obedecer mais).

A demanda por um agente externo com conhecimento técnico, prático – alguém que saiba o como e o quê fazer com o material coletado dentro de um galpão era a voz presente.

Este agente externo na figura de assessor (a), consultor (a), pesquisadora, de instrutor, de coordenador do galpão, era alguém que ofereceria informações, observações, estímulos, repreensões, autoridade, referencial, conselhos, orientações, maternagem, paternagem, instruções, lanche, equipamentos de segurança individual etc.

Consideramos que o “lugar” desse agente externo junto ao grupo seja o de AUTORIDADE, enquanto lei que organiza, e o de OBJETO DE APOIO ou ANACLÍTICO, enquanto alguém em condições de possibilitar a sobrevivência material e subjetiva do grupo, ou seja, sua autopreservação. Lembrando que o apoio é demandado a alguém em quem se reconhece autoridade para oferecê-lo.

Enquanto AUTORIDADE, buscamos em Pereira (2002), o axioma fundamental dessa palavra que vem do latim “augere – posteriormente aucto, auctare, que quer dizer: aumentar, acrescentar, favorecer”.

“(...), a figura de autoridade (mãe e pai) para o filho é, ao mesmo tempo, referência e objeto de seu desejo. É também fator de embasamento e capacitação para que o mesmo possa ser, posteriormente, independente, livre e agente de transformação social e cultural.” (p.281).

 

 Enquanto OBJETO DE APOIO ou ANACLÍTICO, fomos buscar em Laplanche & Pontalis (1992), esse conceito em Freud, quando este trata da Teoria das Pulsões.  Encontramos o verbete “escolha de objeto por apoio” que se refere ao:

Tipo de escolha de objeto em que o objeto de amor é eleito a partir do modelo das figuras parentais na medida em que estas asseguram à criança alimento, cuidados e proteção. Fundamenta-se no fato de as pulsões sexuais se apoiarem originalmente nas pulsões de autoconservação.” (p.112).

 

O agente externo ao grupo é alguém a quem se atribui um poder inicialmente inquestionável, ao mesmo tempo provoca dúvidas e conflitos, sendo que a relação apresenta nuances de confiança/desconfiança. É alguém próximo aos integrantes do grupo pelo desenvolvimento de laços de afetividade e de conviviabilidade e, muitas vezes, laços de dependência e expectativas inatingíveis.

Entretanto, para além da demanda por um agente externo, os (as) associados (as) afirmam que para a associação ir pra frente é importante a cooperação entre os associados e associadas no lugar da competição que existia no lixão, e o regimento interno como instrumento de auto-organização, ou seja, cada um se organizar de acordo como o que for conversado e decidido entre os associados e associadas sobre as regras, as normas de trabalho e o jeito de trabalhar dentro da associação.

Identificamos que consideram a comunicação, a união, a paciência, o respeito e a crença de que pode dar certo como os princípios norteadores de sua nova perspectiva de organização coletiva, a associação APARE.

Sabemos da importância dos processos vivenciados em grupo na construção da identidade pessoal e coletiva.

Sobre esse tema, Lane (2002) nos afirma que:

“(...) as diversas experiências comunitárias vêm apontando para a importância do grupo como condição, por um lado, para o conhecimento da realidade comum, para a auto-reflexão e, por outro, para a ação conjunta e organizada.” (p.31).

 

Em Sawaia (2002), encontramos uma citação que caracteriza bem o processo dialógico possível entre integrantes de um mesmo grupo, expressando seus desejos e interesses através da linguagem, construindo concretamente a coletividade.

“Todos os membros de relação devem ter legitimidade para se fazer ouvir e a capacidade argumentativa para participar da construção do consenso democrático, para que uns não se alienem do outro, considerado o dono do saber, lembrando que capacidade argumentativa (...) é a capacidade de defender suas próprias necessidades respeitando a dos outros, isto é, habilidade de, através da linguagem, lidar com a realidade do desejo próprio e do outro, construindo um nós.” (p.48).

 

Nesta perspectiva, adotamos as Oficinas de Autogestão como procedimento metodológico em nosso trabalho de campo por acreditarmos que seriam espaços de diálogo e reflexão sobre os conflitos, as demandas, os afetos, as ansiedades, os mitos, as ilusões, as esperanças e desesperanças, as dificuldades, a produtividade, a geração de renda, ou seja, sobre os processos coletivos inerentes a um grupo nascente em momento de construção da organização e gestão coletiva de seu próprio trabalho através da construção de um vínculo grupal e de um projeto comum.

Enriquez (2001) nos convida a refletir sobre esta questão quando nos ajuda a caracterizar o contexto do grupo que tentamos compreender.

“São numerosos os estudos sobre mecanismos ou processos de grupos já constituídos, que têm uma história (...) e que tentam formar para si um futuro. São mais raras, no entanto, as análises de grupos em estado nascente. (...) O que favorece o vínculo grupal? Por que indivíduos se reúnem e chegam a funcionar como uma comunidade? O que permite diferenciar um simples amontoado de sujeitos de um grupo consciente de sua existência e de seus valores?” (p.61).

Sendo nossa intenção estudar um grupo nesta condição e estando diante de um contexto diferente, inusitado e ainda pouco pesquisado, precisamos buscar outros recursos de trabalho de campo, de análise e de elaboração científica diferentes dos que tradicionalmente trabalhamos.

Oficinas de Autogestão – entre a dialogia e a ação.

De acordo com Trajano (2002), Oficina de Autogestão é uma estratégia adotada como forma de favorecer a discussão e reflexão em torno dos principais problemas enfrentados na prática de construção da autogestão.

Em Pereira (2002) encontramos que a autogestão visa a transformação e não só a participação, implica em uma opção política e na escolha livre dos atores sociais, na mudança radical da sua maneira de viver em comum e em novas relações de poder, de propriedade, de prazer e de prestígio.

Trajano (2002) nos fala sobre a busca, no processo das oficinas de autogestão de elementos que nos possibilitem construir uma proposta de atuação com grupos que favoreça processos de emancipação e construção da autonomia e da solidariedade entre os sujeitos envolvidos.

No processo de pesquisa/ação atuamos junto aos processos do grupo estimulando a expressão do pensamento, das idéias, dos sentimentos por parte de seus membros, e também, facilitando e provocando o pensar, o refletir, o sentir e o projetar. Nesse movimento, provocamos também ansiedades e resistências ao lidarmos com o grupo na busca de sua autogestão, na perspectiva da mudança e do desenvolvimento de relações mais cooperativas e solidárias.

Todos os aspectos citados são focos de nossa investigação científica: O que acontece entre os membros de grupos em estado nascente (em situação de exclusão social e econômica) em seus processos de construção de um vínculo e de um projeto coletivo que lhes possibilite um futuro comum através do trabalho cooperativo e associativo?    

 Neste empreendimento econômico solidário estudado, encontramos indivíduos singulares vivenciando coletivamente uma “transição paradigmática” (Souza Santos, 2002) do individual para o coletivo; do heterônomo para o autônomo; do competir para o cooperar; da indiferença para a solidariedade; da exclusão do mundo do trabalho para a construção individual e coletiva de identidades e subjetividades de catadores (as) de material reciclável. Vivências pessoais de exclusão familiar, escolar, do trabalho, da vida social amalgamadas com a persistência, a resistência e a luta individual pelo sustento de si mesmos e de suas famílias.

Reflexões e considerações – uma tentativa de compreensão sobre a APARE.

Em nossa análise, identificamos que existem entre eles relações de amizade, de pertencimento (a maioria mora no mesmo bairro e trabalharam juntos no lixão por muito tempo) e de companheirismo. Vivenciaram, por mais de um ano, uma crise desencadeada por um fator externo (fechamento do lixão) que eliminou o único espaço de trabalho que possuíam naquele momento. A partir daí são inseridos no tecido social como principal alvo e parceiro na construção de uma política pública municipal de gerenciamento de resíduos sólidos.

Estes trabalhadores e trabalhadoras, organizados na associação, pareciam significar o trabalho como um meio de sobrevivência material e subjetiva, como eixo de agregação entre si e como via de inscrição no meio social.

O que parece unir os associados e associadas da APARE é a concretude do trabalho, a tarefa atual de coletar na cidade (não mais no lixão) o material reciclável, levá-lo até o galpão, realizar a triagem, prensá-lo e comercializá-lo.

Pichon-Riviére (1987) dedicou-se à pesquisa sobre a tarefa do grupo. Para ele todo grupo deve estar centrado na tarefa, sendo este o elemento disparador do processo grupal.

“Um grupo centrado na tarefa é mais sadio do que um grupo centrado no líder. A centralidade na tarefa abre múltiplas possibilidades amorosas entre os componentes de um grupo, como também permite que a liderança seja compartilhada. Quando o centro de gravidade do grupo encontra-se deslocado para a tarefa, ocorrem transformações nas relações de poder, no modo de pensar, nas estruturas internas das pessoas e no grau de satisfação.” (Pereira, 2001, p.287).

 

Finalizando este artigo, consideramos que o trabalho coletivo requer o reconhecimento da existência de outros e de uma interdependência entre estes na realização da atividade laboral, principalmente pelo fato de que nesse contexto, trabalho manual e intelectual estão íntima e complexamente articulados, provocando a resolução dos problemas inerentes aos processos de planejamento, organização e realização de tarefas no contexto de uma relação dialógica.

Nessa dinâmica social concretamente marcada pela manutenção de espaços de trabalho, tendo este uma função social e sendo uma garantia de sobrevivência material e subjetiva, a construção de um projeto que aponte para um futuro comum compartilhado e o vínculo constituído entre os membros de um grupo, que acreditam e defendem sua causa de existência, nos parece ser um contexto favorável à construção de autonomia e de outras formas de viver no trabalho e na sociedade.

Assim, acreditamos que, no contexto do “fim do emprego”, o trabalho associativo e cooperativo possa ser considerado como um elo concreto e dinâmico que vincula pessoas em busca de sobrevivência e de existência, que vivendo seus medos, conflitos, dificuldades e contradições em comunidade, também podem sonhar, desejar e construir na realidade algo diferente do que lhes é posto em função de suas condições adversas de vida.

Podemos concluir que grupos/coletivos que têm o trabalho como eixo mediador de suas relações, que tentam constituir-se a partir de princípios que contrapõem a produção capitalista e buscam construir uma perspectiva associativista e cooperativista em uma ética de cooperação e solidariedade, configuram-se em um espaço propício de construção de outras formas de organização do trabalho, levando-se em consideração os conflitos, as contradições e as diferenças pertinentes à trama relacional entre sujeitos humanos, mas também a permissão mútua de expressão da subjetividade, de reflexão crítica contextualizada e de diálogo na construção de um futuro comum.

Referências Bibliográficas

Carvalho, R. A. A. (2001). “Reconfiguração de perfis entre os processos de inserção e ‘reinserção’ dos (novos) sujeitos trabalhadores”. In: Carvalho, R. e Horta, C. R. (Orgs.). Globalização, Trabalho e Desemprego – Um enfoque internacional. Belo Horizonte: C/Arte.

Enriquez, E. A. (2001).  “O Vínculo Grupal”. In: ANDRÉ, L. et al. Psicossociologia – análise e intervenção. Organizado e traduzido por Marília N. da Mata Machado et al. Belo Horizonte: Autêntica.

Lane, S. T. M. (2002).  “Históricos e Fundamentos da Psicologia Comunitária no Brasil”. In: Campos, R. H. de F. PSICOLOGIA SOCIAL COMUNITÁRIA: da solidariedade à autonomia. Petrópolis, RJ: Vozes.

Laplanche e Pontalis. (1992) Vocabulário da Psicanálise. Trad. Pedro Tamen. São Paulo: Martins Fontes.

Lisboa, A. M. “Os desafios da Economia Popular Solidária”. Link Bibliografia. Disponível em www.ecosol.org.br. Acesso em 20 março de 2004.

Pichon-Riviére, E. (1987). O processo grupal. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes.

Sawaia, B. B. (2002). “Comunidade: a apropriação científica de um conceito tão antigo quanto a humanidade”. In: Campos, R. H. de F. PSICOLOGIA SOCIAL COMUNITÁRIA: da solidariedade à autonomia. Petrópolis, RJ: Vozes.

Pereira, W. C. C. (2001). Nas trilhas do trabalho comunitário e social: teoria, método e prática. Belo Horizonte: Vozes: PUC Minas.

Souza Santos, B. (2000). A Crítica da Razão Indolente: Contra o Desperdício da Experiência. 2º Edição. São Paulo: Editora Cortez.

Trajano, A. R. (2002). “Trabalho e Identidade em novas configurações socioprodutivas autogestionárias: AUTOGESTÃO, AUTONOMIA E SOLIDARIEDADE EM CONSTRUÇÃO”. Dissertação de Mestrado defendida junto ao Mestrado da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte/MG.

Notas

Empreendimentos Econômicos Solidários são organizações coletivas suprafamiliares, singulares ou complexas, e permanentes (associações, cooperativas, empresas autogestionárias, grupos de produção, etc.). Os trabalhadores/as exercem a autogestão. Podem dispor ou não de registro legal. Realizam atividades econômicas: produção, serviços, crédito, comercialização e consumo solidário. Fonte: http://www.mte.gov.br/observatorio/apresentacaosies.pdf. Acesso em 27/02/2007.

 

Metodologia de pesquisa construída pelo Grupo de Pesquisa em Economia Solidária do Núcleo de Estudos sobre o Trabalho Humano - NESTH - da Universidade Federal de Minas Gerais.